Título: Para a maioria dos executivos, é cedo para aumentar juro
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Fonte: Valor Econômico, 14/04/2010, Especial, p. A12
A maioria dos empresários ouvidos ontem, durante a entrega do prêmio Executivo de Valor, principalmente aqueles ligados ao setor industrial, diz que ainda é cedo para que o Banco Central eleve a taxa básica de juro. Na avaliação deles, a pressão inflacionária neste momento está relacionada principalmente a fatores sazonais. Temem que uma medida precipitada do BC na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) acabe prejudicando a retomada do crescimento econômico.
André Gerdau Johannpeter, presidente do grupo Gerdau, considera que o BC não deveria elevar a taxa de juro agora. Para ele, a alta da inflação está mais relacionada à sazonalidade de alguns itens. "Neste momento, não vejo necessidade de aumento na Selic." Para o executivo, deve ser feito um monitoramento nos próximos meses para ver como a inflação se comportará.
Bernardo Gradin, presidente da Braskem, também não vê razão para elevar a taxa de juros neste momento. Segundo ele, o aumento de capacidade da produção das indústrias poderá contornar o problema de oferta.
"Tem que ir com calma", alerta o presidente da Vale, Roger Agnelli. Para ele também ainda não é hora de elevar a taxa Selic. Segundo Agnelli, o BC tem de avaliar o momento mais adequado, pois a economia do país está em processo de retomada do crescimento.
Além de concordar que ainda não é o momento para elevar os juros, o presidente da Alpargatas, Márcio Utsch, sugere alternativas. "Tem outros mecanismos de cortar a inflação, como aumentar a produção", diz. O presidente da Natura, Alessandro Carlucci, tem a mesma opinião. Para ele, a inflação deve ser controlada com aumento da capacidade instalada e da produção.
Walter Schalka, presidente da Votorantim Cimentos, não vê risco de inflação de demanda, e por isso não há justificativa para alta de juros. "O problema hoje para a inflação são questões estruturais, como a alta das commodities, dos preços agrícolas," diz.
Apesar de admitir que hoje já há pressão inflacionária, Harry Schmelzer Jr., presidente da WEG, também não considera o aumento de juros uma saída viável. "Se sobem os juros, vem para o país mais capital especulativo, o real se valoriza, mas isso não significa que o Brasil terá mais competitividade", diz. Para Wilson Ferreira, presidente da CPFL, o governo terá de intervir elevando a taxa de juros, quando for necessário, mas segundo ele, "este ainda não é o momento".
Executivos de empresas ligadas ao agronegócio também não veem a necessidade de aumentar a taxa de juros básica para controlar a inflação. "Sentimos que a economia está se aquecendo e que estamos muito próximos desse aumento de juros, mas ainda não é o momento", afirma Marcos Lutz, presidente-executivo da Cosan.
"Não podemos negar que a política monetária adotada até agora foi eficiente e o juro foi a forma encontrada para segurar a inflação. De qualquer forma, não acredito que a hora para se elevar o juro tenha chegado", afirma Marcelo Martins, presidente da Cargill no Brasil.
Guilherme Paulus, da operadora de turismo CVC, diz que a melhor saída para segurar a inflação não passa pelo aumento dos juros. "Para segurar a inflação, é necessário ampliar o mercado de consumo, vender mais, movimentar ainda mais a economia."
A visão do setor financeiro em relação à necessidade de elevar a taxa Selic é diferente. O presidente do Itaú, Roberto Setubal, avalia que é a hora de aumentar a taxa básica para conter as pressões inflacionárias. O banco prevê um crescimento do PIB de pelo menos 6,5%, em 2010. "Não há capacidade de investimento para sustentar essa expansão", diz.
Cledorvino Belini, presidente da Fiat do Brasil, classifica a inflação como inimiga da estabilidade, e diz que, para contê-la, é preferível um período curto de juros mais altos, mas com estabilidade econômica. "Juros altos inibem os investimentos produtivos, que é o que o Brasil mais precisa para garantir sua competitividade global e o crescimento sustentado, mas necessitamos manter a inflação sob controle", afirma ele.
Para Antonio Maciel Neto, da Suzano Papel e Celulose, a inflação "não pode voltar de jeito nenhum. Se for preciso elevar os juros para conter a alta, sou a favor". Para o diretor-geral do Hospital Israelita Albert Einstein, Henrique Sutton de Sousa Neves, o consumo encontra-se em patamar elevado, o que deve resultar em pressões inflacionárias. Mais cedo ou mais tarde essa decisão terá que ser tomada.
O presidente da Azul, Pedro Janot, considera que a taxa de juros deveria subir para segurar a inflação. "Todos os demais mecanismos para controlar a inflação não estão suficientemente prontos ou ativos, como o controle do déficit público, por exemplo", disse. "O melhor mecanismo ainda é a taxa de juro."