Título: Europa é hoje um 'Primeiro Mundo' à beira do abismo
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 15/04/2010, Internacional, p. A13

Quando autoridades pomposas, ministros econômicos, banqueiros centrais e profetas econômicos ponderarem as perspectivas para a economia mundial em sua reunião anual em Washington, este mês, a região que suscitará mais preocupação será a Europa.

A recessão da qual o mundo tem emergido foi gestada nos EUA. Mas surgem diariamente novas evidências de que a saúde econômica do país está melhorando. Sua economia está crescendo a um ritmo anualizado de 3%, suficiente para aumentar as esperança de que as contratações logo vão voltar. O Japão tem seus problemas, mas os dados mais recentes inspiram otimismo. A economia da China está tão aquecida que o Banco Central está tentando resfriá-la. Cingapura, um termômetro do resto da Ásia, informou que sua economia cresceu a um ritmo anualizado de 32,1% no primeiro trimestre, e agora prevê crescimento entre 7% e 9% em 2010.

E a Europa? Ela parece destinada a crescer a um ritmo pouco maior que 1% este ano - mesmo que evite percalços inesperados.

Numa enquente nesta semana, o "Wall Street Journal" perguntou aos economistas: que região importante deve contribuir menos para o crescimento mundial este ano? Quarenta e seis apontaram a Europa; sete, o Japão. Nenhum deles escolheu outra região. "A Europa caminha na beira do Grande Canyon", disse um deles. "O risco é unicamente negativo."

Economistas do Instituto de Finanças Internacionais, um grupo de bancos multinacionais, emitiu recentemente a primeira "revisão significativa de alta" nas previsões de crescimento mundial em seis meses, citando a demanda doméstica "mais robusta" nos EUA, Japão e mercados emergentes. Para a maior parte da Europa, contudo, eles enxergam a demanda doméstica como "preocupantemente fraca". Michael Mussa, do centro de pesquisas Instituto Peterson de Economia Internacional, considerado mais otimista que a maioria de seus colegas no ramo das previsões, disse na semana passada que a "Europa Ocidental é a única região em que a recessão se mostrou muito pior do que eu previa em abril [de 2008] e onde o nível da recuperação tem sido decepcionante até agora".

A China comanda as manchetes, mas a Europa ainda é importante. A UE produziu US$ 15 trilhões em bens e serviços no ano passado, um pouco mais que os EUA. A China produziu US$ 5 trilhões ao câmbio atual. A China, cuja economia se beneficia de uma dose cavalar de estímulo fiscal, provavelmente cresce mais rápido do que o sustentável se quiser evitar inflação e formação de bolhas. A Europa, em contraste, está crescendo mais lentamente que o seu potencial. Um sinal disso: a inflação chinesa está subindo. Mas na Europa os preços acumularam em março uma alta de 1,5% em 12 meses - abaixo da meta do BCE para a inflação, que é "abaixo mas próximo de 2%".

A UE entrou em recessão depois dos EUA, e portanto pode se recuperar depois. Suas fábricas orientadas para exportações estão dando sinais de vida muito bem-vindos. E o crescimento populacional extremamente lento implica crescimento geral mais lento. (Como há menos pessoas, é preciso menos crescimento geral para aumentar o padrão de vida.) Mas a perspectiva de curto prazo da Europa é perturbadoramente sombria.

A endividada Grécia não é o problema. É um sintoma. Os preços e os salários na Grécia, na Irlanda, na Itália, em Portugal e na Espanha são altos demais para concorrer com o resto do mundo. A velha solução seria desvalorizar a moeda, mas compartilhar o euro torna isso impossível. Então salários e preços precisam cair, assim como na Irlanda. Se o BCE quer evitar uma deflação continental, então o declínio dos preços no sul da Europa deve ser acompanhando de inflação nos países mais fortes do continente, para empurrar a média de inflação da zona do euro para mais perto da meta do BCE. Mas a Alemanha não está disposta a conviver com tanta inflação. Então o risco é que as autoridades monetárias da Europa sejam avarentas demais. E as preocupações com o alto endividamento dos governos, e a obsessão com metas de déficit estabelecidas num tratado que nunca cogitou uma calamidade como a que acabamos de superar, bloqueiam qualquer novo estímulo fiscal substancial para impulsionar a demanda.

A maioria da Europa, especialmente a Alemanha, está orgulhosa de seu poder exportador. Mas ela não pode ser como os EUA, que ajudaram a detonar a crise com despesas e endividamento excessivos. A China começou a fazer sua parte: o consumo de lá cresceu mais rápido do que o resto da economia pela primeira vez em anos.

Mas alemães e outros consumidores europeus não estão gastando livremente. Talvez os europeus, cada vez mais velhos, temam que medidas para cortar déficits públicos possam corroer suas aposentadorias. Talvez eles estejam ligeiramente preocupados com as perspectivas de emprego numa economia que é mais eficiente na hora de salvar empregos nas fábricas de carros da Opel do que em criar novas vagas numa recuperação. (Cadê a Apple ou o Google da Alemanha?) Qualquer que seja o motivo, a cautela dos consumidores europeus - e a incapacidade ou falta de vontade dos governos de reverter isso - é um freio mundial.

E há os bancos. O Japão escapou do pior da crise financeira. Os bancos americanos estão se fortalecendo, embora ainda não estejam emprestando muito. Os bancos chineses são uma bomba-relógio. E os da Europa - bom, é difícil dizer, e esse é o problema. Investidores e analistas comentam que os bancos europeus ainda não revelaram tudo e ainda têm prejuízos não divulgados. Os bancos maiores têm reservas de capital menores que as dos americanos. A oferta de crédito para as empresas europeias continua encolhendo.

Não é difícil imaginar as autoridades econômicas da China - especialmente se elas finalmente deixarem a moeda local se valorizar um pouco, como todo mundo espera - olhando para os colegas do resto do mundo e dizendo: OK, fizemos praticamente tudo que vocês pediram. Agora vamos falar sobre a Europa.