Título: "Governos têm caráter e índole", diz Serra
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 01/04/2010, Política, p. A9
Para uma plateia de cerca de cinco mil pessoas, em cerimônia transmitida ao vivo pela internet, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), despediu-se ontem do cargo com um discurso em que se apresentou como um realizador capaz de aumentar investimentos sem colocar em risco as finanças públicas e governar sem ceder ao fisiologismo. Serra fez ontem um balanço dos três anos e três meses em que governou o Estado e executou ontem o primeiro ato do lançamento de sua campanha à Presidência da República, ao conclamar a militantes, correligionários e aliados: "Vamos juntos, o Brasil pode mais".
O tucano sinalizou o tom do discurso que deverá seguir na campanha. Optou por prestar contas de sua gestão sem se prender a números, mas destacando "valores e princípios", em um pronunciamento que durou cerca de 50 minutos. "Acho que os governos, como as pessoas, têm que ter caráter. Caráter e índole", disse. "Este é um governo de caráter, que manteve a sua coerência, não cedeu à demagogia, a soluções fáceis e erradas para problemas difíceis. Nem se deixou pautar por particularismos e mesquinharias", afirmou. Durante todo tempo, Serra fez referências à "honra", "personalidade", "brio profissional", "alma", "sensibilidade" e ser "solidário".
O governador disse que em sua gestão não permitiu que se cultivassem "escândalos, malfeitos, roubalheira" e que "nunca incentivou o silêncio da cumplicidade e da conivência com o mal feito". Sem fazer referências diretas ao governo federal, Serra comentou que já foi da oposição e da situação, mas que de um lado ou do outro, nunca se rendeu "à frivolidade das bravatas". "Nunca investi no "quanto pior melhor". Nunca exerci a política do ódio. Sempre desejei o êxito administrativo dos adversários quando no poder, pois isso significa querer o bem dos cidadãos, dos indivíduos". Em seguida, o tucano complementou dizendo que essa postura nunca o impediu de "apresentar sugestões" e "estimular o embate político e o exercício democrático das diferenças". Serra disse ainda que não incentivou o "confronto gratuito", nem "mobilizou falanges de ódio". "Jamais dei meu apoio a uma proposta, a uma ação política, porque elas seriam prejudiciais aos meus oponentes. Não sou assim. Não ajo assim. Não entendo assim o debate político", declarou ontem. "E nisso não vou mudar. Ainda que venha ser alvo dessas mesmas falanges. Ao eventual ódio, eu reajo com serenidade de quem tem São Paulo e o Brasil no coração", completou.
Ao falar de sua gestão, o governador disse que nunca concordou com a tese de "dividir para governar", ou seja, convidar uma pessoa para se contrapor à outra. "Em vez de ter uma resultante positiva perde-se e já se perdeu muito na vida pública brasileira em razão dessa verdadeira anomalia do dividir para governar."
No balanço do governo, Serra afirmou que seu governo foi marcado pela austeridade fiscal. "Não é mesquinharia econômica. Austeridade é cortar desperdícios, reduzir custos precisamente para se fazer mais com aquilo que se dispõe. Não é para guardar o dinheiro numa burra e deixar longe das necessidades. Pelo contrário: é para extrair mais de cada unidade de dinheiro, de cada real", comentou. Das principais ações de seu governo, Serra destacou os investimentos como forma de alavancar o desenvolvimento e gerar empregos. O governador disse ainda que combateu a sonegação e não aumentou impostos. "Pelo contrário, diminuímos a carga tributária individual e desoneramos setores chaves da nossa economia."
O governador elogiou o ex-governador Geraldo Alckmin, atual secretário de Desenvolvimento, de quem disse ter herdado uma "herança bendita". "organizamos as finanças do Estado. Praticamos uma rigorosa austeridade fiscal. Herdamos nesse aspecto e renovamos os padrões do nosso querido e saudoso Mário Covas e do Geraldo Alckmin." Serra e Alckmin se desentenderam nas duas últimas eleições, mas o governador tentou mostrar que as divergências foram superadas. O ex-governador é candidato ao governo do Estado.
Em tom de campanha, Serra lembrou do lema do brasão de São Paulo "Pelo Brasil, façam se as grandes coisas". "É o papel, é o destino de São Paulo. E esta é também a nossa missão. Vamos juntos, o Brasil pode mais!", comentou a correligionários e aliados, como o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), Katia Abreu (DEM-TO). O tucano fez dois discursos. No segundo, voltado aos populares que não participaram da cerimônia, disse que se esforçará para "combater as desigualdades".
Serra ironizou sua fama de centralizador e descreveu qual é o perfil que acredita ter: "Sério, mas não sisudo"; "realista, mas não pessimista"; "calmo, mas omisso"; "otimista, mas não leviano"; "monitor, não centralizador". Nesse momento, o governador e ex-ministro da Saúde brincou: "O pessoal de Brasília, sorriu ironicamente. Mas o pessoal de São Paulo acredita nisso. Os que convivem comigo acreditam que eu não sou centralizador. É difícil passar essa ideia, mas é a verdade." O governador lembrou de sua passagem pelo teatro e citou "Operário em Construção", de Vinícius de Moraes , e Guimarães Rosa ("Mestre não é quem ensina, mestre é quem, de repente, aprende"). Serra deixará o cargo amanhã. O vice, Alberto Goldman, assumirá o governo.