Título: Reuniões de cúpula acenam com promessas de negócios
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 16/04/2010, Brasil, p. A4

Realizadas no mesmo dia, devido ao terremoto na China que obrigou o presidente chinês, Hu Jintao, a voltar um dia antes do planejado ao país, foram cercadas de promessas de negócios as duas reuniões de cúpula convocadas nesta semana pelo governo brasileiro para Brasília. A reunião do Ibas, grupo que reúne Brasil, Índia e África do Sul, resultou, além das declarações políticas em acordo para lançamento de dois satélites conjuntos de estudos climáticos e de monitoramento, com uso previsto em áreas como agricultura. À margem do encontro dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foram anunciados acordos bilionários com os chineses

Um recorde nos investimentos chineses no Brasil foi batido, com o acordo, assinado à margem do encontro, entre a Wuhan Iron and Steel chinesa e a EBX, de Eike Batista, de US$ 5 bilhões (US$ 3,5 bilhões dos chineses) para instalar uma siderúrgica no Porto de Açu, no Rio. Batista disse que a siderúrgica, prevista para funcionar a partir de 2013, deverá fornecer aço à China, "agregando valor ao produto brasileiro".

Os países do Bric firmaram memorando de entendimentos entre seus bancos de desenvolvimento, para permitir financiamento conjunto de projetos. "Isso ainda é muito declaração de intenções", comentou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ao informar que o acordo deverá abarcar projetos em infraestrutura, energia e eficiência energética, sustentabilidade ambiental e inovação tecnológica. O memorando foi elogiado pelo presidente da Rússia, Dmirtri Medvedev, como exemplo de "medidas concretas" possíveis, com aprofundamento do grupo.

O esperado Plano de Ação Conjunta firmado entre o presidente chinês, Hu Jintao, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi vazio de metas concretas, mas cheio de declarações de compromisso pela aproximação entre os dois governos, coordenação de posições nas discussões internacionais e maior agilidade nos planos de cooperação e na solução de atritos. "Decidimos reuniões regulares para verificar o cumprimento dos compromissos, são medidas muito concretas", disse o embaixador do Brasil na China, Clodoaldo Hugueney.

Outros acordos foram confirmados por empresários, como o empréstimo de US$ 1 bilhão do Banco de Desenvolvimento da China para a Oi, que usará esses recursos principalmente para compra de equipamentos chineses e reforço do capital de giro.

Embora em seu artigo 1º, o Plano de Ação Conjunta Brasil-China afirme prever "metas de ação concreta", a maior parte das ações previstas é de estreitamento diplomático, como a realização de reuniões mais frequentes entre autoridades e encontros bilaterais da Cosban, comissão de alto nível criada há quatro anos e reunida apenas uma vez. Os parágrafos estão recheados de verbos como "fortalecer", "intensificar" e "manter" objetivos previstos em acordos já assinados.

O Brasil fala vagamente em "melhores esforços" e "diálogo sobre a implementação" do compromisso também assumido em 2006 para reconhecer oficialmente a China como economia de mercado, algo evitado até hoje por dificultar ações antidumping contra produtos chineses. Os dois países falam em continuar o diálogo sobre um possível mecanismo de trocas em moedas locais.

O tamanho do programa, com 14 páginas e quase uma centena de artigos mostra um leque inédito de temas nas relações entre China e Brasil, da criação de um grupo para discutir propriedade intelectual a cooperação em matéria de financiamento ao desenvolvimento. "Foi excelente, há entusiasmo dos chineses com a cooperação conjunta", comentou o subsecretário-geral de Política do Itamaraty, Roberto Jaguaribe, ao sair do encontro entre Lula e Hu Jintao.

Lula manteve encontros também com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e o presidente da África do Sul, Jacob Zuma. Com ambos, discutiu as relações econômicas e comerciais. Tanto com o indiano quanto com o sul-africano e o chinês, Lula discutiu a reforma do sistema financeiro após a crise que chegou ao auge em 2008.