Título: Terror mata 38 em Moscou e coloca Putin em xeque
Autor: Gutterman, Steve
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2010, Internacional, p. A12

Os militantes tchetchenos que o premiê Vladimir Putin prometeu esmagar, durante sua ascensão ao poder uma década atrás, mandaram ao Kremlin uma mensagem desafiadora, ontem, ao realizar o pior ataque em Moscou em seis anos. A mensagem ressalta os fracassos da política russa em sua região mais turbulenta. Duas mulheres-bomba mataram pelo menos 38 pessoas em trens do metrô de Moscou no horário do rush. Testemunhas descreveram o pânico em duas estações centrais de Moscou após as explosões, com passageiros caindo uns sobre os outros em meio a nuvens espessas de fumaça e poeira, enquanto tentavam escapar do ataque. Outras 64 pessoas ficaram feridas, muitas delas gravemente, e as autoridades disseram que o número de mortos ainda pode subir. As bombas, segundo o comando da segurança no país, estavam repletas de parafusos e pedaços de ferro. Nenhum grupo reivindicou a autoria do ataque, mas o chefe do Serviço Federal de Segurança (FSB), Alexander Bortnikov, disse que os responsáveis têm ligações com o norte do Cáucaso, região de maioria muçulmana, marcada pela insurgência e cujos líderes já ameaçaram atacar cidades, oleodutos e gasodutos em outras partes da Rússia. O Kremlin tinha declarado vitória em sua batalha contra separatistas tchetchenos, que já travaram duas guerras com Moscou. Mas no último ano a violência se intensificou nas repúblicas vizinhas do Daguestão e da Inguchétia, onde a militância islâmica coincide com rivalidades entre clãs e quadrilhas criminosas, em meio a um ambiente de pobreza. A reação aos ataques será um importante indicador de como os dois homens que comandam a Rússia, Putin e o presidente Dmitri Medvedev, reagirão à violenta turbulência no norte do Cáucaso expressivamente muçulmano , um obstáculo crucial à segurança e ao sucesso do país. O ataque também poderá ter um papel em intrigas políticas no período que antecede a eleição presidencial, em 2012, quando Putin- ainda visto como principal líder na Rússia, depois de guiar Medvedev rumo à Presidência, em 2008 - poderá buscar um retorno ao Kremlin. Quando foi primeiro-ministro, durante a Presidência de Boris Ieltsin (1991-99), Putin levou a Rússia à sua segunda guerra pós-soviética contra os rebeldes na Província da Tchetchênia, no norte do Cáucaso, após uma série de ataques a bomba mortais em prédios de apartamentos em Moscou e outras cidades. Em determinado momento, Putin prometeu que os rebeldes seriam encontrados e mortos até mesmo "na privada" - um pronunciamento típico do discurso duro que fortaleceu sua popularidade durante sua Presidência, de 2000 a 2008. "Isso é uma afronta direta a Vladimir Putin, cuja ascensão ao poder foi toda construída em cima de sua promessa de esmagar os inimigos da Rússia", disse Jonathan Eyal, do Royal United Services Institute, no Reino Unido, sobre os atentados. A reação do Kremlin poderá basear-se no emprego de táticas mais duras contra os grupos militantes no norte do Cáucaso que vêm testando as políticas antiterroristas do Kremlin há uma geração. O prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, disse que os ataques foram realizados por mulheres-bomba suicidas - um método usado por rebeldes tchetchenos. Grupos defensores dos direitos humanos dizem que a repressão na turbulenta região apenas alimenta a ira da insurgência, quase uma década depois da guerra com que Putin aniquilou o governo separatista da Tchetchênia. O presidente Dmitri Medvedev enfatizou recentemente a necessidade de combater as causas subjacentes, tais como corrupção, pobreza e abuso de autoridade. Mas Matthew Clements, analista do IHS Jane´s Information Group para a Eurásia, disse que os ataques poderão fortalecer os trunfos da linha dura na elite dirigente russa. Isso poderia resultar em táticas mais duras que "poderiam significar um distanciamento da dupla abordagem de buscar desenvolvimento social e económico paralelamente a ações de segurança". Analistas dizem também que ações mais vigorosas poderão dissuadir as comunidades muçulmanas alvo de fornecer informações vitais necessárias a tal campanha de contrainsurgência. O histórico do Kremlin no norte do Cáucaso tem sido "completamente contraproducente", disse Galina Yemelianova, do Centro de Estudos sobre a Rússia e o Leste Europeu na Universidade de Birmingham. Ela disse que as ações russas "têm expulsado a insurgência da Tchetchênia. Os insurgentes são cada vez mais multiétnicos e estão se espalhando para outras partes da região através de redes clandestinas de jihadistas que se tornaram cada vez mais ativas". Putin, que interrompeu uma viagem à Sibéria para retornar a Moscou, prometeu que "os terroristas serão destruídos". Medvedev disse que a Rússia agirá "sem concessões" para erradicar os terroristas "até o fim", mas exortou as autoridades para que respeitem os direitos humanos. Mas analistas dizem que essas preocupações poderão ser postas de lado, à medida que o Kremlin tente evitar novos ataques. Críticos do Kremlin também temem que o ataque possa deflagrar uma ofensiva repressiva mais ampla, que poderá fortalecer os adversários do governo, já empurrados para as margens do espectro político. "Nós sabemos que, sob a capa da luta contra o terrorismo, a repressão e as pressões sobre a oposição serão revigoradas", disse em comunicado o grupo Solidariedade, que congrega importantes opositores liberais ao Kremlin. Após uma série de ataques letais em 2004, Putin conseguiu aprovar reformas eleitorais que reforçaram o controle do Kremlin sobre a esfera política e atraiu acusações de retrocessos na democracia. A partir de então, a violência atribuída a rebeldes separatistas tinha se limitado principalmente ao norte do Cáucaso - uma série de Províncias na fronteira meridional russa. Os ataques de ontem foram os mais letais em Moscou desde fevereiro de 2004. Intencionalmente ou não, a localização da primeira bomba enviou uma mensagem ao aparelho de segurança russo: a estação de metrô Lubianka compartilha seu nome com a sede da FSB, principal sucessora da KGB soviética, que fica a apenas metros de distância. "É espantoso que a FSB tenha sido incapaz de anular essa operação. Evidentemente, não se pode evitar tudo. Mas a infiltração de grupos tchetchenos em Moscou pela polícia tem sido muito ineficiente", disse Eyal.