Título: Contra convocação de Vaccari, governistas ameaçam retaliar oposição
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 24/03/2010, Política, p. A9

Para evitar que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, ex-diretor financeiro e ex-presidente da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), preste depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das organizações não governamentais (ONGs) - controlada pela oposição -, governistas sinalizaram com a perspectiva de, por sua vez, convocarem pessoas envolvidas em denúncias contra lideranças do PSDB e do DEM nos Estados.

Vaccari foi convocado pela CPI das ONGs a dar explicações sobre o inquérito policial que investiga desvio de recursos da Bancoop, supostamente para abastecer campanhas eleitorais do PT desde 2002. O episódio é tratado pela oposição como um caso de corrupção que pode comprometer o PT. O depoimento de Vaccari havia sido marcado para ontem, mas o tesoureiro do PT pediu adiamento, alegando que seu advogado está no exterior e gostaria de comparecer ao Senado com ele.

O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), quer "sobrestar" a convocação de Vaccari na CPI. "O assunto não diz respeito à CPI das ONGs. Se tivermos que ouvir alguém sobre aplicação de dinheiro é na Comissão de Fiscalização e Controle. Em tese, nem isso, porque o dinheiro é privado", afirmou o líder do governo.

Uma pasta contendo vários requerimentos propondo a convocação de denunciantes de governadores e prefeitos da oposição chegou a ser mostrada pelo líder a senadores da oposição. Jucá alegou tratar-se de propostas de petistas, que ele estaria "segurando" para evitar uma guerra de convocações no Senado neste período eleitoral.

"Não podemos transformar o Senado num ringue, em que cada comissão seja um vale-tudo", disse. Com esse argumento, Jucá propôs à oposição um "acordo de procedimentos" em torno de convocações que estão sendo aprovadas pela oposição, aproveitando ausência de governistas. No caso de Vaccari, Jucá pretende que, em vez de ser ouvido pela CPI das ONGs na condição de "convocado", preste depoimento na Comissão de Fiscalização e Controle como "convidado". Para Jucá, "é mais pertinente". O presidente da comissão é o governista Renato Casagrande (PSB-ES), vice-líder do bloco de apoio ao governo.

Primeiro, Jucá anunciou ter mobilizado a base aliada para anular a ata da sessão anterior, em que a convocação de Vaccari foi aprovada, o que seria um ato inédito na Casa. "E uma violência contra o processo legislativo", disse o presidente da CPI, senador Heráclito Fortes (DEM-PI). Para evitar a rejeição da ata, o demista abriu a reunião e encerrou-a em cinco minutos, não colocando a ata em votação.

Além da convocação de Vaccari, a oposição também aprovou na CPI das ONGs convites para o promotor de Justiça José Carlos Blat, responsável pelo inquérito da Bancoop, o corretor de câmbio Lúcio Funaro, que intermediou operações para dirigentes da cooperativa, e Hélio Malheiro (irmão de um ex-presidente da Bancoop morto em um acidente em 2004), que denunciou desvio de dinheiro da cooperativa para o ""caixa dois " do PT.

O acordo entre oposição e governo para evitar convocações que provoquem constrangimentos mútuos foi criticado. "Trazer Vaccari, Blat, etc. é um direito do qual não devemos abrir mão", disse o líder do DEM, José Agripino (RN). "Convidar", segundo o demista, "é um instrumento para ganhar tempo". O próprio Heráclito disse que "não existe hipótese" de suspender a convocação de Vaccari. "Jucá quer revogar a oposição", disse Tasso Jereissati (PSDB-CE). (RU)