Título: Brasil alerta que BID pode precisar demais dinheiro
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Fonte: Valor Econômico, 24/03/2010, Finanças, p. C14
O governo brasileiro ficoualiviado com um acordo de última hora para aumentar a capitalização do BancoInteramericano de Desenvolvimento (BID), mas alertou que a instituição poderáprecisar de mais dinheiro em breve. "Poderemos ser convocados no curtoprazo para voltar a discutir uma capitalização", disse o ministro doPlanejamento Paulo Bernardo segunda-feira, à noite, a jornalistas, do lado defora da reunião anual do BID. O ministro disse que mais recursos poderão sernecessários num período de três ou quatro anos.
O presidente do BID, Luis AlbertoMoreno, já havia dito este mês que o banco está sob pressão para aumentar seucapital porque sua capacidade de empréstimo começará a cair significativamentea partir do ano que vem.
Os 48 países membros do BIDconcordaram na segunda-feira em aumentar o capital da instituição em US$ 70bilhões, dos quais US$ 1,7 bilhão será efetivamente aportado, quase dobrandosua capacidade de conceder empréstimos pata a América Latina e o Caribe. Oacordo foi alcançado depois de um fim de semana de negociações tensas, nasquais as diferenças sobre as regras ambientais e a supervisão econômicamostraram ser motivos de impasse. Os membros incluem 26 tomadores da AméricaLatina e Caribe e 22 países não-tomadores de empréstimos, que incluem oprincipal acionista, os Estados Unidos, além da China, Japão e 16 paíseseuropeus.
O Brasil e outros paísesrejeitaram uma proposta dos EUA para o BID adotar efetivamente a legislaçãoambiental americana, e o atrelamento dos empréstimos à supervisão econômicapelo BID. Mesmo assim, um acordo foi firmado para tornar mais duras as regrasambientais e para agregar uma certa supervisão econômica ao processo deaprovação dos empréstimos, segundo disse Bernardo.
Marisa Lago,secretária-assistente do Departamento do Tesouro dos EUA para o desenvolvimentoe os mercados internacionais, disse em um comunicado à imprensa que os EUAestão satisfeitos com o acordo.
"Estamos bastantesatisfeitos com o resultado para o banco e o resultado para os EUA", disseLago, observando que este é o maior aumento de capital já recebido peloBID."Foi um processo de consenso... de olhar para os pontos que nosunem", disse ela. "Neste sentido, os consensos foram o Haiti, umaumento considerável [no capital] e uma reforma na agenda.
Funcionários do governo argentinodisseram que o acordo deixou um "gosto amargo" porque um pequenoesforço adicional poderia ter feito uma diferença significativa para a forçafinanceira da instituição. Eles concordam com o Brasil que o BID poderáprecisar de mais capital nos próximos anos.
O vice-ministro da Economia daArgentina Roberto Felletti disse que queria US$ 2,8 bilhões em capital pago, oque teria permitido ao BID emprestar entre US$12 bilhões e US$ 13 bilhões porano. O acordo final permitirá empréstimos de US$ 11,5 bilhões a US$ 12 bilhõespor ano, mas vai restringiras parâmetros financeiros do banco, segundoFelletti.
O ministro da Economia daArgentina Amado Boudou demonstrou preocupação com o novo papel supervisor doBID. A Argentina pagou antecipadamente empréstimos que tinha com o FundoMonetário Internacional (FMI), exatamente porque não quis aceitar as condiçõese, segundo disse Boudou, terminologias vagas são sempre usadas para separaros "amigos dos inimigos".
No ano passado, o BID aprovouempréstimos de US$ 15,5bilhões - um aumento de 38% sobre 2008-, num anoextraordinário em que ele tentou compensar algumas das consequências das crisesfinanceira e econômica mundiais. O ministro Paulo Bernardo disse que "ademanda [por empréstimos] está crescendo".
O BID está perdendo terreno emcomparação a outras instituições financeiras multilaterais, ainda de acordo comBernardo. A Andean Development Corp., ou CAF, que é uma instituição menor que oBID, conseguiu aprovar empréstimos de US$ 12 bilhões no ano passado e semostrou mais ágil que o BID, disse Bernardo.
A reunião dos governadores doBID, no resort litorâneo de Cancún, no México, que terminou segunda-feira ànoite, também chegou a um acordo para fornecer ajuda financeira ao Haiti,depois do devastador terremoto que atingiu o país em janeiro. A ajudarepresentará US$ 479 milhões este ano e US$ 200 milhões por ano durante ospróximos dez anos.