Título: Setor privado quer mais concessões da UE
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 25/03/2010, Brasil, p. A3
AUnião Europeia (UE) sinalizou ao Mercosul que só poderia dar a metadedas cotas para três produtos de especial interesse do bloco: carnesbovina e de frango e também alho. A outra metade ficaria para asnegociações da Rodada Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Emmarço de 2006, o Mercosul tinha pedido cota, com tarifa menor, de 300mil toneladas de carne bovina, 250 mil toneladas para carne de frango e20 mil toneladas para alho. E a posição europeia de insistir emcombinar concessões nas rodadas birregional e multilateral, pagando àprestação o que vai ganhar em retorno, deixou frustrados certosnegociadores.
O setorprivado brasileiro advertiu ontem o Itamaraty para cobrar maisconcessões dos europeus. Ele estima que hoje o acesso ao mercadobrasileiro, em plena expansão econômica, vale bem mais que o combalidomercado europeu. O maior interesse hoje é de empresas europeias emfechar um acordo. O mercado automotivo brasileiro, por exemplo, é umdos maiores do mundo e os europeus só têm a ganhar com a abertura,avaliam representantes do setor privado.
Oseuropeus continuam cobrando melhoras na oferta do Mercosul. Tambéminsinuaram que gostariam de um acordo de livre comércio nos moldes doque Bruxelas negociou recentemente com Peru e Colômbia, com o qualconseguiu uma abertura significativa. Essa possibilidade já foidescartada.
O ministrodas Relações Exteriores, Celso Amorim, passou a cobrar publicamenteofertas boas da UE, argumentando que o Mercosul melhorou sua oferta.
Representantesde segmentos industriais que acompanham a negociação não acreditam emuma proposta imediata da UE que possa ser considerada interessante parao Mercosul.
Oassunto foi discutido ontem, em São Paulo, em reunião da CoalizaçãoEmpresarial Brasileira (CEB). No encontro, representantes de váriossegmentos ouviram o relato sobre o andamento das negociações do chefedo Departamento de Negociações Internacionais do Itamaraty, EvandroDidonet.
"O que há denovo é que o Brasil está mais interessante politicamente e que o Brasile a Argentina estão muito mais alinhados com o objetivo de fazer umacordo", diz um dos participantes da reunião. "O lado europeu aindacontinua difícil. Pelo que estamos acompanhando, a UE não sinaliza commais ofertas ou não está sendo mais positiva talvez em função dasituação economicamente difícil de seus países."
Segundoa fonte, as entidades que representam os diversos segmentos industriaistêm dado apoio ao acordo, mesmo com o impacto que a eliminação detarifas pode ter na produção nacional de bens. A preocupação, diz, éque a oferta da União Europeia em relação às barreiras para produtosagrícolas não seja boa o suficiente para retribuir as facilidadespropostas pelo Mercosul. "Há uma sensação de que já passamos por umestágio de negociação muito parecido com esse. O aspecto positivo é queos europeus nunca deixaram essa negociação apagar de vez", conclui.
Paraoutro participante da reunião, a reação da União Europeia não geraexpectativa de um acordo a ser fechado até o fim deste ano. "A UEcontinua com a mesma posição de 2004, quando as negociações pararam: oudemandando mais ou oferecendo menos." A mudança pela qual o Brasilpassou, diz um representante do setor privado, não está sendo levada emconsideração pelos europeus. "A sensação generalizada é que hoje o paísé mais interessante do que era em 2004, com crescimento praticamenteconstante, entre os maiores produtores de veículos do mundo. O mesmonão aconteceu com a União Europeia, que está sofrendo com oenfraquecimento de algumas economias e o problema fiscal da Grécia, porexemplo. Isso, porém, parece que não está sendo levado em consideraçãona elaboração de uma proposta pela outra parte", diz.