Título: Debate do Código Florestal terá executivos
Autor: Zanatta , Mauro
Fonte: Valor Econômico, 25/03/2010, Política, p. A5
Abancada ruralista cumpriu ontem a ameaça de pressionar os financiadoresdas ONGs ambientalistas que iniciaram uma campanha para travaralterações no Código Florestal Brasileiro, em vigor desde 1965.
Odeputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator da comissão especial dereforma das leis ambientais, apresentou proposta para convidardirigentes de cinco empresas a debater as modificações em audiênciapública na Câmara. Coordenador da recém-criada Frente ParlamentarNacionalista, Rebelo acusa ONGs de representar interesses estrangeiroscontrários à produção nacional.
Os primeiros convidados serão executivos de Bradesco, Volkswagen, Coca-Cola, Colgate-Palmolive e American Express,identificadas como financiadoras da Fundação SOS Mata Atlântica. A ONGlidera a campanha "Exterminadores do Futuro", criada para listar osparlamentares mais ativos nos debates em favor de alterações das atuaisregras ambientais do país. "Vamos discutir e debater as causas econsequências da alteração do Código Florestal com os financiadorespara que esta Casa possa adotar um posicionamento mais efetivo emrelação ao assunto", disse Rebelo.
Aferoz disputa entre ruralistas e ambientalistas teve mais um capítuloontem, durante audiência na Comissão da Amazônia. Ao questionar arealização do debate sobre a alteração do Código Florestal em outracomissão, o deputado Ivan Valente (P-Sol-SP) acusou colegas ruralistasde viajar pelo Brasil às custas de empresas do agronegócio. "Não viajopor aí porque não tenho financiamento do agronegócio", provocouValente, aliado dos ambientalistas, em referência às mais de 30 viagensfeitas pelos ruralistas para a realização de audiências públicas nosEstados.
À mesa,Rebelo reagiu indignado: "Vossa Excelência dê-se o respeito porque aquininguém viaja ou visita financiado pelo agronegócio. Viajamos em aviãoda FAB". Valente retrucou: "Quero respeito de vocês", disse. "Você temum histórico, Aldo. Tem que cuidar com que relatório vai fazer". Adiscussão ficou mais quente com a intervenção do presidente dacomissão, Moacir Micheletto (PMDB-PR). "É mentira", disse. "Repudioisso. Nunca viajamos em avião particular. Sempre fomos de FAB e nada dehotéis 5 estrelas. Essas despesas são pagas com a verba de gabinete decada um". No fim da sessão, o líder ruralista, Valdir Colatto(PMDB-SC), desafiou Valente: "Ele fez acusação e terá que provar".
Asrusgas entre as bancadas ficaram mais acirradas ontem. Até entãosolitário no plenário, Valente ganhou o apoio do ambientalista RicardoTrípoli (PSDB-SP). "Há uma esquizofrenia nessas acusações dedesocupados contra exterminadores", disse. "Estamos perdendo apercepção do macro. Vocês estão dando um tiro no pé, porque a florestavale muito mais em pé do que derrubada". O auxílio do colega revigorouValente. Ele voltou a cobrar a manutenção de conceitos de áreas dereserva legal e de preservação permanente, como matas ciliares, norelatório de Rebelo. "Se querem desmatamento zero, porque tirar areserva legal de 80% na Amazônia?", questionou.
Emsua apresentação, Rebelo afirmou ser "ignorante" em questõesambientais, mas deu uma aula sobre o processo histórico de ocupação ede produção secular da Amazônia. Citou a resistência do líder indígenaAjuricaba à tentativa de escravidão pelos colonizadores portugueses e odestemor do militar gaúcho Plácido de Castro durante a RevoluçãoAcreana, em 1902, na guerra contra a Bolívia pelo controle das terrashoje ocupadas pelo Estado do Acre. Rebelo criticou os interessesestrangeiros em espoliar a biodiversidade nacional com a prospecção demateriais genéticos e reivindicou a construção de estradas polêmicas,como as BRs 319 (Manaus-Porto Velho) e 163 (Cuiabá-Santarém), paraintegrar a Amazônia ao Centro-Sul. "É possível proteger o meioambiente, mas a Amazônia tem direito à legítima aspiração de não viverisolada", afirmou o relator da reforma das leis ambientais.