Título: Festa latina
Autor: Monteiro , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 25/03/2010, EU & Investimentos, p. D1

Nãoé só de bife de chorizo, vinho chileno e tequila que se faz aintegração latino-americana. Há também boas oportunidades de ganhardinheiro com ações de empresas da região. A BM&FBovespa já anunciouque pretende fechar parcerias com suas "hermanas" para que osinvestidores desses países possam negociar aqui e vice-versa. Mas quaisseriam as vantagens de aplicar em outras bolsas latino-americanas?Estudo realizado pelo professor Alexandre Espírito Santo, diretor docurso de Relações Internacionais da ESPM-RJ, mostra que, apesar de osmercados latinos seguirem a mesma tendência em boa parte das vezes, adiversificação vale a pena porque reduz o risco.

Aestratégia da BM&FBovespa com os acordos é desenvolver os mercadoslocais. No início do ano, por exemplo, ela assinou uma parceria com aBolsa do Chile para desenvolver uma rede de conectividade. ABM&FBovespa pretende anunciar acordo semelhante com a Bolsa daColômbia e ainda discute a mesma estratégia no Peru e no México.

Parasaber o que o investidor ganha com isso, o professor analisou acorrelação do Ibovespa com o principal indicador da bolsas mexicana(IPC), chilena (IPSA) e argentina (Merval). A correlação mede o quantodois mercados, por exemplo, caminham na mesma direção, tanto na altaquanto na baixa. O período avaliado foi de janeiro de 2000 a dezembrode 2009.

Os númerosmostram que a maior correlação do Ibovespa ocorre com o mercadochileno, de 0,92. Isso significa que em 92% das vezes esses doismercados caminham na mesma direção. Em seguida, aparece a bolsa doMéxico, com 76%.

SegundoEspírito Santo, matematicamente, uma correlação acima de 0,70 - ouseja, de 70% - é considerada alta. "Isso vai ao encontro da unificaçãodas atividades das bolsas latinas já que elas seguem a mesma direção namaior parte das vezes", diz. A menor correlação aparece entre a bolsado México e a da Argentina, com 60%. O professor ressalta, no entanto,que o mercado argentino tem menor liquidez e ainda sofre os impactos docalote da dívida em 2000.

Mas,além da correlação, é importante observar a relação entre o risco e oretorno desses mercados, o chamado coeficiente de variação. Quantomenor esse indicador, melhor. Nesse aspecto, o que se vê é que, apesarda correlação alta entre as bolsas latinas, a relação risco/retorno ébem diferente. De acordo com o levantamento, o México apresenta arelação risco/retorno mais favorável entre os mercados analisados,seguido do Chile.

Arelação risco/retorno do Ibovespa não se mostra tão favorável quandocomparada à do México ou à do Chile, o que significa que a bolsabrasileira oscila mais que essas duas. Na visão de Espírito Santo, omercado brasileiro paga um pênalti pela maior liquidez.

Naopinião do professor, apesar da correlação alta, a relaçãorisco/retorno revela que, em momentos de turbulência, é bomdiversificar no México e no Chile. Isso porque tal estratégia reduz orisco geral de sua carteira. "Não dá para antecipar se uma possívelunificação das bolsas será benéfica para o investidor", diz EspíritoSanto. "Mas o que se vê é que no mundo inteiro as bolsas vêm buscandosinergias e fusões e, com isso, reduzindo custos."

Acessaroutras bolsas latino-americanas seria bastante interessante, já que osinvestidores poderiam aplicar em mercados bem diferentes do brasileiro,avalia Sonia Villalobos, da gestora chilena Larrain Vial Asset Management.O grupo tem uma das maiores corretoras do Chile e possui um escritóriono Brasil. O Peru é bastante parecido com o Brasil no sentido de teruma bolsa muito focada em commodities, diz a executiva. "Mas o Chile,por exemplo, já é muito mais focado no consumo interno, forte em açõesde bancos e comércio", afirma. "E o México está ligado aos EstadosUnidos - se a economia americana cresce, a mexicana vai junto",explica.

Justamentepor serem economias tão distintas é que Sonia vê com bons olhos umpossível projeto de integração entre as bolsas latino-americanas. "Emtermos de diversificação, é algo bem interessante", diz a gestora,ressaltando, no entanto, que o investidor brasileiro terá de fazer odever de casa e procurar entender as companhias de outros países. "Enão apenas investir somente por ter acesso a um outro mercado."

Parcerias entre a Bovespa e outros mercados se tornam uma relação em que todos ganham, diz Marcos De Callis, gestor da Schroders Brasil."A bolsa passa a ter maior escala e, consequentemente, cobra menostaxas dos investidores, que passam a ter mais opções de papéis",explica.