Título: Estrangeiro migra de ações de Brasil para renda fixa
Autor: Eduardo Campos
Fonte: Valor Econômico, 19/04/2010, Investimentos, p. D2

de São Paulo

As variáveis inflação e taxa de juros começam a mudar o perfil dos investimentos estrangeiros nos mercados emergentes. A constatação é da EPFR Global, consultoria que acompanha a movimentação global de fundos. " Um tema que parece estar dirigindo o fluxo de recursos no momento é a inflação " , notou Cameron Brandt, analista-sênior da consultoria. Segundo ele, o interesse crescente por títulos de dívida de países emergentes e a reação às pressões inflacionárias no Brasil sugerem que os investidores estão abraçando a ideia de maior inflação e juros. Se por um lado essa percepção chama dinheiro aos fundos de bônus, por outro, leva os investidores a adotar uma postura mais cautelosa com relação aos investimentos em ações. E o mercado que melhor ilustra essa nova dinâmica é o brasileiro. Segundo a EPFR Global, a preocupação com o comportamento dos preços resultou em saques de US$ 473 milhões dos fundos de ações do Brasil na semana encerrada dia 14. Foi a maior retirada em 197 semanas. A consultoria aponta que os agentes também estão se prevenindo contra o ciclo de alta de juros esperado para começar agora, em abril. Essa retirada do Brasil bateu forte nos fundos de ações da América Latina, único entre os quatro grandes grupos emergentes a perder dinheiro na semana do dia 14. No total, os fundos de ações de emergentes levantaram US$ 996,6 milhões. O resultado é positivo, mas representa apenas um terço dos mais de US$ 3,2 bilhões levantados na semana anterior. Mais uma vez, grande parte desse dinheiro ficou com fundos emergentes globais (GEM, na sigla em inglês), com mandato para investimentos diversificados ao redor dos emergentes. Os emergentes da Europa, Oriente Médio e África (EMEA, na sigla em inglês) tiveram mais uma semana de forte captação. Foram US$ 368 milhões, maior soma em 25 semanas. A categoria Ásia (ex Japão) levantou US$ 79 milhões. Olhando para países desenvolvidos, o mercado de ações manteve o tom positivo do começo do mês, com o Dow Jones retomando a linha dos 11 mil pontos pela primeira vez em 18 meses. No entanto, segundo a EPFR Global, como os investidores já tinham se posicionado antevendo essa retomada, o momento agora é mais propício à realização de lucros. Os fundos de ações dos Estados Unidos perderam dinheiro pela primeira vez em nove semanas. Os fundos de índice (ETF, na sigla em inglês) com foco em grandes empresas lideraram os saques. Depois de uma pausa na primeira semana do mês, os investidores voltaram a apostar na recuperação da economia japonesa, graças à retomada do crescimento nos EUA e da robusta demanda da China. As carteiras levantaram US$ 429 milhões no período. O novo plano de ajuda à Grécia, costurado pela zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), não foi suficiente para convencer os investidores a colocar dinheiro na região. Os fundos de ações da Europa perderam mais de US$ 1,3 bilhão, marcando a 10ª semana seguida de saques. No cômputo geral, todos os fundos de ações, emergentes ou desenvolvidos, amargaram um saque conjunto de US$ 6,16 bilhões. Em contrapartida, todas as carteiras de bônus levantaram US$ 5,62 bilhões. Os fundos de bônus de emergentes captaram US$ 1,8 bilhão, novo recorde semanal. Com isso, o total acumulado no ano passa de US$ 10,4 bilhões. Para efeito de comparação, a cifra é maior do que todo o dinheiro arrecadado em 2005, ano recorde. O bom desempenho das carteiras de títulos não está restrito aos mercados emergentes. Os fundos de bônus globais marcaram a 51ª semana seguida de captação. Foram US$ 2,23 bilhões no período encerrado dia 14. Já os fundos de bônus dos Estados Unidos ganharam dinheiro pela 67ª semana, embora os US$ 940 milhões levantados sejam o menor montante desde julho do ano passado.