Título: Furnas atrasa quatro anos modernização de linhas
Autor: Fariello , Danilo
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2010, Brasil, p. A3
A postergação de investimentos em modernização e manutenção da estatal federal Eletrobrás Furnas, e por consequência para-raios obsoletos operando no principal sistema de transmissão do país, é apontada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) como um dos fatores que levaram à queda, nunca antes registrada, das três linhas de transmissão do sistema Itaipu. A queda ocasionou um apagão sem precedentes em novembro de 2009.
O relatório de fiscalização da Aneel diz ainda que a modernização foi postergada com ciência do Operador Nacional do Sistema (ONS) e que a troca do próprio sistema de comunicação de Furnas, recomendada depois do apagão de 1999, também não havia sido feita até agora. A troca do sistema é de responsabilidade do ONS e de Furnas, segundo a agência.
Isso já sinaliza que também o ONS poderá ser responsabilizado quando a Aneel concluir a fiscalização do operador. Isso porque as empresas Copel, Eletrosul, CEEE, Cemig e Chesf já tinham efetuado a troca de 100% dos equipamentos e no lote de responsabilidade de Furnas, apenas 35%. Os problemas no sistema de informações ampliaram a abrangência do apagão e fizeram com que a luz demorasse mais a ser restabelecida, segundo a Aneel.
Furnas se defende dizendo que investiu, entre 2005 e 2009, R$ 1,2 bilhão em modernização de seus sistemas de transmissão. Mas esse valor não chega a 20% dos investimentos liberados pelo governo federal para serem feitos pela companhia no mesmo período. Se levado em conta todo o orçamento aprovado pela União no período para Furnas, de R$ 37 bilhões, o valor investido não chega a 3,5% do total. E não é por falta de resultados. Nos quatro anos mencionados pela companhia, o lucro foi de mais de R$ 2,5 bilhões, números registrados até setembro de 2009.
O grande questionamento da Aneel está no fato de que a obsolescência dos equipamentos de Furnas foi constatada em 2003, ou seja, há quase oito anos. O prazo dado para a modernização foi o ano de 2006. Naquele ano, 50% dos para-raios eram obsoletos. Mas postergações, aprovadas e acompanhados pelo ONS, deram permissão para que o plano fosse executado até dezembro de 2010, segundo o relatório da agência. Além disso, o relatório destaca que desde 2005 foram registradas cem ocorrências no sistema 765 kV de Itaipu e que, no período de oito anos, fora, aplicadas 17 sanções administrativas irrecorríveis em função de falta de manutenção.
A empresa tentou justamente argumentar com a Aneel que tinha essa autorização, até 2010, para fazer a modernização do sistema de transmissão de Itaipu. Mas um dos pontos que a agência destacou, para referendar a multa de R$ 54 milhões dada à companhia em função do apagão foi o fato de que em julho um evento parecido havia ocorrido nas linhas da empresa em Ivaiporã. Naquela época, a estatal discutia sua receita anual com a agência e se comprometeu até setembro de 2009 rever os reatores do terceiro circuito de Ivaiporã. Mas essa correção não tinha sido feita até o dia do apagão. A empresa alegou, entretanto, que não tinha obrigação de fazer os ajustes e mesmo assim vinha fazendo e que a unidade do Circuito 3 estava para ser reajustada no dia 11 de novembro, ou seja, um dia depois do apagão.
Além disso, Furnas diz que o próprio relatório do ONS atribui a condições climáticas severas a causa do blecaute. Mas mesmo que esse ponto tivesse sido levado em consideração, a agência teria multado Furnas de qualquer forma, porque verificou que seus funcionários não receberam treinamento adequado e cometeram alguns erros que fizeram com que cargas que já tinham sido normalizadas fossem novamente desligadas.
As três linhas de Itaberá-Ivaiporá que ao caírem simultaneamente provocaram o apagão são responsáveis pelo fornecimento da parte brasileira da energia de Itaipu, que corre a 60 Hz. Mas a magnitude do apagão também levou que as duas linhas de corrente contínua que transmitem a energia paraguaia da usina, a 50 Hz, também caíssem. O sistema consegue suportar a queda de duas linhas de Itaipu, como aconteceu no dia 22 de julho do ano passado. Mas não estava preparado para a queda das três linhas.
Segundo o relatório da Aneel, no dia 16 de dezembro um novo evento do mesmo tipo registrado nos meses de julho e novembro aconteceu. Como o problema dos equipamentos em Furnas ainda não foi resolvido e o sistema está sujeito a novos desligamentos, o ONS decidiu reduzir a carga de Itaipu que passa pelas três linhas da empresa. Para compensar essa redução de energia no sistema, chamada de contingência tripla, determinou o acionamento de térmicas que custam R$ 12 milhões por dia ao consumidor. (JG)