Título: Vacinas colocam o Brasil no mapa de investimentos
Autor: Scaramuzzo , Mônica
Fonte: Valor Econômico, 05/04/2010, Empresas, p. B11
O personagem Zé Gotinha, lançado pelo Ministério da Saúde para estimular a erradicação da poliomielite (paralisia infantil) no Brasil na década de 80, ainda faz parte do imaginário popular. Criado em 1986, Zé Gotinha virou símbolo de campanhas de vacinação, quando o país era altamente dependente da importação desses medicamentos. Hoje, mais de 20 anos depois, o personagem anda meio esquecido, mas o segmento de vacinas avançou muito nesse período, com pesados incentivos do governo federal, tornando-se alvo de fortes investimentos de multinacionais interessadas em expandir no mercado nacional.
A produção de vacinas no país concentra-se nas mãos dos laboratórios estatais, vinculados aos governos estaduais. No entanto, toda a inovação nesse segmento ainda está nas mãos das farmacêuticas internacionais, que firmam acordo de transferência de tecnologia com as empresas locais.
O mercado global de vacinas é gigante e muito atraente. Movimenta algo como US$ 17 bilhões, com taxas médias de crescimento de 16% ao ano, segundo informou ao Valor a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse segmento triplicou nos últimos oito anos, tornando-se um dos mercados de maior expansão entre os setores da indústria em geral - duas vezes mais rápido que o de drogas terapêuticas, por exemplo, segundo a OMS. No Brasil, a receita com vacinas é bem mais modesta, em torno de R$ 1 bilhão, com cerca de 400 milhões de doses comercializadas por ano. Mas tende a crescer.
Em entrevista ao Valor, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou que o país ganhou força nos últimos anos, por meio de contratos de transferência de tecnologia. "As parcerias com as empresas privadas internacionais permitiram o desenvolvimento de vacinas modernas. Pelos contratos firmados, as multinacionais transferem tecnologia e ganham reserva de mercado por um período, que varia de cinco a oito anos", disse.
Temporão cita um acordo bem-sucedido com a multinacional suíça Novartis. Estimulada pelo potencial de expansão no país, a múlti vai erguer em Pernambuco uma fábrica de vacinas avaliada em US$ 500 milhões para entrar em operação a partir de 2014. Segundo Gláucia Vespa, contratada pela Novartis para tocar os negócios de vacina da empresa no país, a fábrica será instalada na cidade de Goiana. "Essa unidade terá condições de produzir diversas vacinas. A Novartis terá uma operação local, mas sua estratégia é global", disse. "Pernambuco foi escolhido pela localização geográfica, por estar mais perto dos EUA e Europa e por ser um Estado importante nesse segmento. Além disso, a região Nordeste é uma das que mais no país."
Antes de ingressar na companhia privada em 2008, Gláucia fez parte do Ministério da Saúde e conhece como poucos o segmento de vacinas e o Programa Nacional de Imunização (PNI) do país. O grupo suíço tem desde o ano passado acordo de transferência de tecnologia de produção da vacina contra a meningite C para a Fundação Ezequiel Dias (Funed), do governo de Minas Gerais. "O Brasil tem um dos melhores programas nacionais de imunização do mundo", afirmou.
Líder mundial de produção de vacinas, a Sanofi-Pasteur, divisão da Sanofi-Aventis, prioriza parcerias com laboratórios nacionais no país para ampliar sua presença nesse mercado. Segundo Patrice Lebrun, diretor da área de vacinas do grupo, a parceria fechada com o Instituto Butantan para o desenvolvimento de vacinas para o combate à gripe é considerado um "case" de sucesso pela empresa. "No início da década de 70, com o surto de meningite no Brasil, tivemos de produzir em larga escala e chegamos a ofertar cerca de 100 milhões de doses para combater a doença", afirmou. Para 2011, ou no mais tardar 2012, a empresa passa a vender uma vacina mais potente no país contra meningite, a meningocócica conjugada quadrivalente.
O segmento público de vacinas é o mais atraente para as multinacionais, reconhece Jacqueline Escotero, diretora de vacinas da farmacêutica Merck Sharp&Dohme (MSD), vice-líder global. "Todos os países têm calendários públicos. O Brasil tem uma das coberturas mais importantes para pediatria e adultos no mundo", diz. Com um portfólio amplo de vacinas, a MSD tem como carros-chefes produtos para a prevenção do papiloma vírus humano (HPV) e do rotavírus.
Grandes multinacionais, que desenvolvem na Europa e nos Estados Unidos medicamentos inovadores, começam a focar o mercado nacional, de olho no potencial do setor. Em março, a Sanofi anunciou parceria com a Fundação Biominas para identificar projetos inovadores no país, entre eles, o desenvolvimento de vacinas relacionadas a doenças tropicais. A suíça Roche também anunciou estudos nesse sentido, com base em pesquisas na região Amazônica. A americana Pfizer definirá seus projetos ainda neste semestre.
No ano passado, o Ministério da Saúde investiu R$ 825,6 milhões na compra de vacinas para o Programa Nacional de Imunização (PNI). Foram adquiridas 376,04 milhões de doses de 26 tipos de imunizantes diferentes. O investimento na compra de vacinas subiu 310% nesta década, passando de R$ 200,8 em 2000 para R$ 825,6 milhões em 2009. "O governo decidiu que quer ser autossuficiente na produção de vacinas", disse Temporão. "Avançamos muito e até temos exportado."
Em 2009, a produção nacional respondeu por 86,29% do total de doses adquiridas pelo governo federal, o equivalente a 324,51 milhões de doses. Em 2000, 60,6% das doses distribuídas pelo PNI eram feitas por empresas brasileiras - 178,52 milhões de doses, de um total de 285,16 milhões de doses.
Quatro empresas respondem pela produção dos 16 tipos de vacinas fabricadas no país: Instituto Butantan, Laboratório Biomanguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto de Tecnologia do Paraná, Instituto Ataulpho de Paiva. Biomanguinhos e o Instituto Butantan, juntos, produzem 11 tipos de vacinas - 224 milhões de doses distribuídas gratuitamente em 2009. Esse total correspondeu a 70% da produção nacional.
O Ministério da Saúde, nos últimos seis anos, apostou em acordos de transferência de tecnologia para acelerar o conhecimento brasileiro no setor. Entre 2003 e 2009, o governo firmou quatro contratos de transferência de tecnologia com multinacionais. Com essas parcerias, os laboratórios passaram a produzir as vacinas de influenza (2007), rotavírus humano (2008), tríplice viral (2003), contra Raiva em Cultivo de Célula Vero (2005).
A partir deste ano, duas novas vacinas serão incluídas no calendário básico de vacinação e oferecidas gratuitamente pela rede pública de saúde: a pneumocócica 10-valente e a anti-meningocócica C. O Ministério da Saúde investirá R$ 552 milhões na aquisição dessas vacinas: R$ 400 milhões para a compra de 13 milhões de doses da pneumocócica e R$ 152 milhões para 8 milhões de doses da meningocócica.
A pneumocócica faz parte de um acordo entre o laboratório Biomanguinhos com a GlaxoSmithKline (GSK), e a antimeningocócica pela Fundação Ezequiel Dias (Funed), do governo de Minas Gerais, a partir de contrato com a Novartis.
Para a melhoria da infraestrutura no setor, o Ministério da Saúde aumentará, até 2012, em 162,7% o investimento médio anual destinado à ampliação das fábricas, compra de equipamentos e aumento da capacidade de produção. Entre o ano passado e 2012, os investimentos previstos são de R$ 350 milhões, uma média de R$ 87,5 milhões por ano. Entre 2003 e 2008, foram aplicados