Título: Em PE, Campos fecha com prefeitos do PSDB e do DEM
Autor: Murillo Camarotto
Fonte: Valor Econômico, 22/04/2010, Especial, p. A14
do Recife
"O governo é como a luz: sempre atrai as mariposas". De autoria desconhecida, o clichê foi a solução encontrada pelo presidente nacional do PPS, Roberto Freire, para avaliar a difícil situação por que passa a oposição em Pernambuco, da qual faz parte. Outra frase feita, esta atribuída ao deputado federal Inocêncio Oliveira (PR-PE), também se mostra pertinente na mesma trama: "Terno branco, sapato de duas cores e oposição só é bonito nos outros". Composta por PSDB, DEM, PMDB e PPS, a oposição ao governador Eduardo Campos (PSB) vive hoje uma situação delicada, segundo admitem seus próprios caciques. Além da altíssima popularidade de Lula, grande aliado de Campos, os oposicionistas estão tendo que lidar com uma verdadeira sangria em sua base de sustentação, especialmente nos municípios do interior. Com os investimentos estaduais chegando às suas cidades, prefeitos do PSDB vêm declarando abertamente que irão apoiar a reeleição de Campos, em detrimento da orientação do partido. O mesmo vinha ocorrendo com prefeitos do DEM que, após serem advertidos, deixaram de se manifestar publicamente, porém não mudaram de opinião quanto ao apoio ao governador. Líder da oposição na Assembleia Legislativa de Pernambuco, a deputada estadual Terezinha Nunes (PSDB) acusa o governo de trocar obras por apoio político e com isso passar o rolo compressor na Casa. O governo, por sua vez, nega a relação entre os investimentos e as adesões dos prefeitos rivais, mas admite, nos bastidores, que tem mantido conversas com o objetivo de atrair esses apoios. O prefeito de Carpina, a 56 quilômetros do Recife, Manoel Botafogo (PSDB), conta que foi convidado por Campos para uma conversa no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo pernambucano, em setembro do ano passado. Durante o encontro, o governador teria pedido apoio à sua reeleição, apesar de saber que Botafogo também estará no palanque do pré-candidato tucano à Presidência, José Serra. "Ele pediu apoio para ele e pra mais ninguém", conta o prefeito. Apesar da conversa, o prefeito diz que o grande motivo para o apoio declarado é o volume de investimentos do governo estadual no município, que passam dos R$ 6 milhões. Os principais projetos são uma escola técnica e um ginásio poliesportivo, além da pavimentação de ruas. "O governador é um grande parceiro da Prefeitura", avalia Botafogo. Na vizinha Lagoa do Carro, a prefeita Judite Botafogo (PSDB) - irmã de Manoel Botafogo - conta história semelhante. Os projetos de abastecimento de água, construção de casas populares e recapeamento do calçadão da cidade foram determinantes para a definição do apoio. A prefeita diz que também foi convidada a visitar o governador, porém o encontro acabou não ocorrendo e a conversa sobre o apoio à reeleição se deu "por telefone mesmo". Assim como ocorreu com o irmão, o pedido se limitou à reeleição de Campos. "Colocamos, de imediato, que não poderíamos deixar esse apoio se estender para outras esferas (eleições para deputados, senador e presidente)", contou a prefeita. Segundo fontes do governo, pelo menos 20 prefeitos da oposição já se comprometeram a pedir votos para Campos, apesar de apenas 13 terem sido revelados. Entre os dissidentes também há prefeitos do próprio PMDB, partido do provável adversário de Campos nas eleições, o senador Jarbas Vasconcelos. Caso conte mesmo com 20 prefeitos da oposição, Eduardo Campos terá ao seu lado cerca de 146 prefeitos, de um total de 184 em Pernambuco. Apesar de comemorarem o feito, os palacianos tratam do tema com bastante cautela, receosos em passar a pecha de oportunista à estratégia de atração de apoios. Os investimentos realizados nos municípios acabam, inevitavelmente, sendo os grandes responsáveis pela atração de apoio, em detrimento de convicções partidárias já pouco consistentes. "O político vive de obra em sua cidade. O partido é importante, mas não resolve", explica um prefeito do DEM, que prefere não ter seu nome publicado. "É impossível fazer oposição a um governo que fez tanto pelo município", completa. Na mesma linha segue o prefeito de Limoeiro, cidade a 80 quilômetros do Recife, Ricardo Teobaldo (PSDB). Após mencionar as obras realizadas na cidade, com destaque para o asfaltamento de ruas, ele não titubeia em dizer que estará no palanque de Campos, apesar de se dizer fiel ao senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB. "Voto com Sérgio em tudo", disse o prefeito, que também pedirá votos para Serra. Além dos prefeitos dissidentes, o PSDB de Pernambuco convive também com deputados estaduais na contramão, casos de Carlos Santana e Emanuel Bringel. Advertidos pelo partido, os dois preferiram não falar mais sobre o assunto. "No caso dos prefeitos, não tem jeito, a gente vai tentar convencê-los a mudar de lado. Mas os deputados, esses sim, ficarão sem legenda para as eleições caso se posicionem contra o partido. Não vamos permitir transgressão", alertou a líder Terezinha Nunes. Segundo Sérgio Guerra, uma das esperanças da oposição é de que o lançamento oficial da candidatura de Jarbas, que deve ser definida até o final deste mês, possa representar uma reviravolta no comportamento dos prefeitos dissidentes. Dos quatro prefeitos tucanos que falaram com o Valor, todos fazem juras de fidelidade a Guerra, que já foi do PSB, partido do governador. No entanto, solicitado a explicar os motivos da debandada dos correligionários, o senador, que mantém boa relação com Campos, foi seco: "Não sou coronel". Jarbas Vasconcelos é a única esperança da oposição, que não dispõe de outros nomes de peso dispostos a enfrentar Campos e seu "rolo compressor". Duas vezes governador e bastante popular na Região Metropolitana do Recife, Jarbas é tido como o único capaz de conter uma vitória folgada do governo, evitando que, além do Palácio, Campos faça também os dois senadores e uma grande bancada na Câmara e na Assembleia. Maior prejudicado pela debandada, o próprio Jarbas chegou a admitir publicamente o desmonte da oposição no Estado, fazendo, inclusive, mea-culpa sobre a situação. Segundo ele, a atividade no Senado não permitiu um maior cuidado com a rede de apoios em Pernambuco. Apesar disso, seus aliados acreditam que a falta de apoio das prefeituras não fará grande diferença nas urnas. Um desses aliados é Roberto Freire, afastado da política pernambucana já há alguns anos. Ele também se diz confiante em uma virada da oposição e, mais uma vez, parafraseou: "Ninguém ganha eleição de véspera".