Título: G-20 perde fôlego na ação de combate à crise global
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 23/04/2010, Finanças, p. C8
O G-20, organismo que lidera a reforma da economia mundial depois da crise financeira, começa a perder fôlego agora que os seus principais membros emergem da recessão. A reunião de ministros de finanças prevista para hoje aqui em Washington não deve trazer resultados palpáveis nos seus dois principais temas: a criação de um imposto mundial sobre os bancos e o estabelecimento de um mecanismo de avaliação para pressionar a China a valorizar a sua moeda.
Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, jogou um balde de água fria na proposta elaborada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de criar dois impostos sobre os bancos para, daqui por diante, fazê-los pagar os custos de resgate pelos governos nas crises financeiras.
"Eu tenho alguma simpatia pela taxação, embora tenhamos que levar em conta que a taxa sobre o prejuízo não se aplica sobre o Brasil porque lá os bancos não causaram prejuízos ao erário", afirma o ministro. Ou seja, o Brasil pode até apoiar a proposta na reunião de hoje do G-20, grupo de 20 países que reúne economias desenvolvidas e emergentes. Mas o Brasil não pretende implantar o imposto.
O apoio do Brasil à proposta sem que o país coloque em prática o imposto equivale a votar contra. A proposta foi colocada na pauta do G-20 por países europeus, liderados pela Inglaterra, justamente para que seja uma regra obedecida em todas as partes do mundo. O objetivo é evitar que os bancos façam a chamada arbitragem regulatória - ou seja, procurem refúgio onde as regras são mais brandas.
O Brasil não é a única defecção na taxação sobre os bancos. Outros países que não tiveram crises bancárias e, historicamente, adotam regras prudenciais mais rígidas não veem sentido nos impostos. É o caso, por exemplo, do Canadá, Japão, India e África do Sul.
O FMI elaborou uma proposta de taxação dos bancos justamente para atender a pedido feito pelo próprio G-20, em sua reunião em fins de 2009 em Pittsburgh. Nos Estados Unidos, onde acontecem eleições legislativas neste ano, há uma reação muito forte contra os bancos, que foram socorridos com dinheiro público durante a crise. O presidente americano, Barack Obama, já apresentou sua proposta para taxar os bancos.
Outro pedido feito pelo G-20 ao FMI em Pittsburg foi para elaborar o chamado programa de avaliação mútua. O objetivo é que o FMI aponte desequilíbrios nas economias dos países-membros que possam, no futuro, causar uma nova crise financeira. É uma regra geral, mas o alvo é claro: a subvalorização da moeda chinesa, o yuan.
O pano de fundo dessa discussão é o diagnóstico de que a crise financeira foi causada por um desequilíbrio macroeconômico entre China e Estados Unidos. A China tem poupança em excesso, fraco consumo e apoia demasiadamente o seu crescimento em exportações. Os Estados Unidos, de outro lado, poupam pouco e tomam recursos emprestados da China e outros países para financiar seu consumo exagerado.
A ideia do G-20 é que o FMI aponte as fragilidades econômicas de cada país e fórmulas para corrigi-las. Os resultados desse trabalho, até agora, são bastante pífios. O FMI pediu aos próprios países entregarem cenários para as suas economias nos próximos anos, para então identificaras os pontos de fragilidade. Mas os cenários entregues até agora são muito róseos e, se forem levados ao pé da letra, os desequilíbrios seriam equacionados sem intervenção do mecanismo de avaliação mútua.
Os Estados Unidos, por exemplo, traçam um cenário em que sua população irá aumentar naturalmente a sua taxa de poupança, que caiu a percentuais tão baixos quanto 2% da renda disponível na década passada. A premissa dos americanos é que a regulação bancária será reforçada, limitando a oferta de crédito e contendo a valorização de ativos, dois fatores que levaram à queda na taxa de poupança.
"O Programa de Monitoramento Mútuo (MAP, na sigla em inglês) é promissor", diz o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn. "Claro, ele ainda tem ainda que ser melhorado, pois é algo que a gente aprende enquanto faz."
Mantega disse que irá tratar do tema subvalorização cambial hoje com o ministro das finanças da China, Xi Xuren, em reunião com os Bric. "Vou discutir esse assunto", diz Mantega. Ele nega, porém, qualquer tipo de pressão. "Não é correto dizer que estamos fazendo pressão sobre a China junto com os Estados Unidos.
Não é bom que o real se valorize não apenas em relação à China, mas também à moeda americana", afirma. "O ideal é que o G-20 possa definir políticas mais homogêneas para o câmbio. Se não existem políticas mais homogêneas, acaba tendo soluções de cada país tentando proteger os seus interesses."