Título: Epidemias ameaçam vítimas de enchentes
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Fonte: Correio Braziliense, 05/07/2010, Opinião, p. 12
A falta de saneamento é problema longe de ser resolvido no Brasil. Na zona rural, o país perde para a Nigéria em índice de população atendida com serviços adequados de esgotamento sanitário: 25% lá, 23% aqui.
A deficiência deveria ao menos ser reduzida à metade até 2015, conforme compromisso assumido com as Nações Unidas na Cúpula do Milênio, realizada em Nova York em 2000. Mas é consenso entre especialistas que a economia emergente, oitava do mundo, não será capaz de atingir a meta.
Essa é a situação geral do país, não a pior. Imagine-se, então, o quadro em municípios miseráveis. Para agravar, suponha que a área em questão tenha sido atingida por tempestades torrenciais, com a destruição de casas, instalações públicas, transbordamento de rios e córregos. É isto: estamos nos referindo a Alagoas e Pernambuco ¿ o primeiro estado, com 26,6 mil desabrigados e 47,8 mil desalojados; o segundo, respectivamente, com 26,9 mil e 55,6 mil. No total, foram contados 57 mortos.
Em meio à lama, aos escombros e ao mau cheiro ¿ com esgotos correndo a céu aberto, animais em putrefação e lixo poluindo o ambiente ¿, sobressaise o risco de epidemias. Como era de esperar, alastram-se os registros de casos de leptospirose, diarreia aguda, síndrome respiratória, cólera e vômito. Sem ação rápida e bem coordenada do Estado, é fácil prever a proliferação desses e de outros males, como hepatite A, esquistossomose, tétano, problemas de pele, além da multiplicação das ocorrências de acidentes com animais peçonhentos, cuja soma já passava de 50 na sexta-feira.
Nem em condições normais as cidades atingidas estariam aptas a enfrentar o problema. Menos ainda no caos vigente, que inclui a destruição total ou parcial de hospitais, postos de saúde e prédios das administrações municipais. Urge, pois, que o poder público, sempre atrasado, reaja de modo enérgico. Se perdeu a hora da prevenção que poderia ter amenizado os efeitos da tragédia, não pode persistir no erro neste momento dramático.
Um mutirão da área de saúde pública, dos órgãos da Defesa Civil, das forças militares e da sociedade se faz necessário e urgente.
Além da recuperação e limpeza das cidades, é preciso agilizar a realização de exames médicos e de laboratório para detectar tão prematuramente quanto possível sintomas de doenças, estabelecendo sistema eficiente de vigilância epidemiológica.
Da mesma forma, distribuir medicamentos e vacinas e assegurar o provimento das populações com água potável e alimentos saudáveis. Por fim, há que desenvolver campanhas maciças de orientação das vítimas sobre higiene e cuidados básicos de saúde (ferver água antes de usar, evitar pisar descalço na lama fétida, produzir soro caseiro para hidratação etc.). Só assim o desamparo e o sofrimento daquela gente poderão ser amenizados.