Título: Copom discute data para subir juro
Autor: Romero, Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2010, Finanças, p. C1

de Brasília Naquele que deve ser o último encontro presidido por Henrique Meirelles, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) se reúne hoje e amanhã para definir a taxa básica de juros (Selic). No mercado e mesmo no governo há o consenso de que a taxa deve subir para desaquecer a economia e conter a inflação, que, segundo expectativas dos agentes econômicos, captadas pelo boletim Focus divulgado ontem, chegará a 5,03% em 2010, superando a meta fixada pelo governo, de 4,5%. Os analistas estão divididos, no entanto, quanto à data de início do novo ciclo de aperto monetário. No Focus, a maioria dos entrevistados acredita que, nesta reunião, o Copom manterá a taxa Selic inalterada - em 8,75% ao ano. A expectativa é que o comitê eleve a taxa em 0,5 ponto percentual na próxima reunião, em abril. Nos encontros seguintes, haveria novos aumentos, de forma que, em dezembro, a Selic chegaria a 11,25%. Copom discute data para subir juroAnalistas ouvidos pelo Valor estão convencidos de que, graças ao aumento da inflação no primeiro trimestre do ano e à forte deterioração das expectativas, a necessidade de elevar juros é imediata. Eles acham, no entanto, que isso não ocorrerá. Uma das razões para não apostar num aumento agora diz respeito ao fato de o Banco Central (BC) não ter sinalizado o movimento de alta claramente, como costuma fazer em seus comunicados oficiais. "O Copom tradicionalmente tem o que o mercado chama de 'protocolo'. Ele avisa antes do aumento de juros. Nos últimos documentos, o comitê não sugeriu elevação para março", diz um economista graduado. "A última ata foi construída de forma bastante ambígua para empurrar o problema para a reunião de março, ou seja, para sinalizar na reunião deste mês o aumento a ser feito em abril", diz outro economista. A ata da última reunião do Comitê, realizada em janeiro, chamou a atenção para a piora das expectativas inflacionárias. De lá para cá, a inflação e as expectativas pioraram ainda mais. Em março, a inflação, medida pelo IPCA, o índice oficial do regime de metas, pode superar 5% no acumulado de 12 meses. Já as expectativas, medidas pelo Focus, vêm piorando há oito semanas consecutivas. Estrategista-chefe do WestLB no Brasil, o economista Roberto Padovani diz que o BC começou a sinalizar a necessidade de um ciclo de alta de juros em dezembro com o Relatório de Inflação e, em janeiro, aumentou o tom na ata do Copom. Mas em nenhum momento usou linguagem direta para sinalizar elevação em março. As sinalizações fazem parte da política de administração de expectativas feita pelo BC. Diante delas, o mercado futuro de juros se move, ajudando a antecipar o aperto monetário. Padovani acredita que a Selic não será alterada amanhã, mas que a ata da reunião virá com termos duros. No início do mês, o BC aumentou os recolhimentos compulsórios dos bancos, retirando mais de R$ 73 bilhões da economia. Ao Valor, o presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que a medida teria impacto monetário. No mercado, as palavras de Meirelles foram entendidas como um sinal de que o aumento da taxa Selic seria adiado, pelo menos, até abril. Na avaliação de especialistas, o compulsório não substitui os juros. "Eles não refrescam a necessidade de aperto. Os bancos, de maneira geral, estavam muito líquidos e não devem ter sido forçados a contrair o crédito e, portanto, encarecê-lo", explicou Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander. Além de Meirelles, deixará o BC em abril Mário Mesquita, diretor de Política Econômica desde 2006. No lugar de Meirelles, deverá assumir o atual diretor de Normas, Alexandre Tombini. Com isso, pela primeira vez na história, o BC será comandado inteiramente por funcionários da burocracia federal - com exceção de Aldo Mendes, diretor de Política Monetária, originário do Banco do Brasil.