Título: Governos aumentam riscos
Autor: Wolf, Martin
Fonte: Valor Econômico, 12/05/2010, Opinião, p. A13

Os governos estão brincando de dobro ou nada no jogo que mantêm com os mercados financeiros. O pacote que eles anunciaram no fim de semana passado é dramático. Mas a questão está em saber se esta será mais que uma solução temporária. A resposta é não. Da forma como foi inicialmente projetada, a zona do euro fracassou. Ela só terá êxito se for radicalmente reformada. Qual é o plano? Primeiro, os governos europeus empenharam 500 bilhões ( 440 bilhões em garantias de empréstimos aos membros da zona do euro em dificuldades, e um acréscimo de 60 bilhões numa linha de crédito para balanços de pagamentos). Segundo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) providenciará 250 bilhões (US$ 320 bilhões) adicionais. Terceiro, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu, para desgosto de Axel Weber, presidente do Bundesbank, adquirir os bônus dos membros sob ataque. Por fim, o Federal Reserve (Fed) dos EUA reabriu as linhas de swap, para permitir acesso a recursos em dólar aos bancos estrangeiros. Esta é uma resposta movida a pânico ao pânico do mercado. Ela nos lembra o último trimestre de 2008. Será que o plano funcionará? Partindo-se da premissa de que seja ratificado, a resposta deveria ser "sim". Ele eleva enormemente o custo de se apostar contra o endividamento de governos fracos. A dívida pública da zona do euro é ligeiramente inferior à dívida pública dos EUA, em relação ao PIB. Se os governos solventes decidirem apoiar os menos solventes, eles poderão fazê-lo, por ora. Porque se concluiu que seria necessária uma reforma tão radical? Afinal, ela está longe de ser o que os formuladores tinham em mente. Este é o ponto em que precisamos recuar ao começo do projeto de uma união monetária. Ela se baseava em três premissas: primeira, limites definidos por tratado restringiriam os déficits fiscais dos membros; segundo, na medida em que isso falhasse, a cláusula de "não resgate" os limitaria; e, terceiro, as economias dos países-membros convergiriam com o passar do tempo. Infelizmente, nenhuma dessas premissas se concretizou. Primeiro, os limites definidos por tratado sobre os déficits se mostraram ineficazes e irrelevantes. Eles revelaram ser ineficazes porque, quando deveriam ter sido vinculantes, foram ignorados. Isso se aplicou de forma mais espetacular ao caso da Grécia, que fez seus números saltarem. Eles comprovaram ser irrelevantes, porque alguns países que têm grandes déficits, especialmente a Espanha, cumpriram facilmente os critérios fiscais, enquanto sua economia bolha continuava inflando: a Espanha obteve um superávit fiscal em 2005, 2006 e 2007. Segundo, por muito tempo os mercados deixaram de dar atenção à fragilidade fiscal que despontava, classificando todos os bônus da zona do euro de forma semelhante. Conforme afirma Paul De Grauwe da Universidade Leuven, em nota mordaz para o Centre for European Policy Studies: A origem da crise da dívida dos governos é a prodigalidade de amplos segmentos do setor privado, e do setor financeiro, em particular. Os mercados financeiros financiaram a orgia e, agora, em pânico, estão se recusando a financiar a faxina resultante. Em cada etapa, eles atuaram de forma próciclica. Agora os governos se empenham em lidar com as sequelas. Ao insistir em afirmar que não haverá calotes, porém, estão protegendo o setor financeiro da sua estupidez. Em vez disso, espera-se que os povos dos países endividados paguem. Será que esse trato comprovará ser aceitável, na ausência de um retorno ao crescimento nos países afetados? Dificilmente.

Que caminho, pois, devemos trilhar a partir deste ponto?

Uma questão fundamental é decidir se seguimos rumo a maior integração ou rumo à desintegração. A resposta deve ser a primeira. É claro, é impossível imaginar um retorno às moedas nacionais. Mas isso provocaria a implosão do sistema financeiro, uma vez que as relações entre ativos e passivos agora em euros ficariam extremamente incertas. Haveria fuga em massa de capital, que se refugiaria nos bancos dos países considerados seguros. Outra questão é como reforçar a solidariedade. Ideia interessante veio de um instituto de pesquisa de políticas públicas sediado em Bruxelas, Bruegel, é que os países da zona do euro deveriam reunir até 60% do PIB das suas dívidas nacionais, criando, dessa forma, um dos dois maiores mercados de dívida pública do mundo. Como meu colega Wolfgang Münchau já explicou, este é o momento da verdade, especialmente para Berlim. A sobrevivência da zona do euro está predominantemente nos interesses de longo prazo da Alemanha, não só porque ele representa a pedra angular de uma política de integração europeia do pós-guerra. A união monetária também tem protegido a competitividade da indústria alemã e, portanto, possibilitou o crescimento da economia, apesar da estagnação na demanda interna. A inclinação alemã é acreditar que tudo estaria bem se os países deficitários fossem submetidos a uma disciplina mais rígida. Isso é falso. A resposta, em vez disso, é criar um sistema que reconhece a realidade e reage a ela. Ele deve ser mudado, para conter divergência, facilitar reestruturação de dívida e promover ajuste econômico. Será isso ou o fracasso. O que se necessita agora é a coragem para reformar sensatamente.