Título: Direita causa a crise e a esquerda tem de limpar a sala, diz Lula a grego
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2010, Brasil, p. A2

De Madri

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, ao abordar a crise econômica e financeira global com o primeiro-ministro socialista da Grécia, George Papandreou, país à beira da falência, à margem da Cúpula União Europeia-América Latina e Caribe, que a direita causa a crise e a esquerda tem de limpar a sala. Lula comparou a pior crise econômica dos últimos tempos ao vulcão islandês Eyjafjallajokull, que paralisou o tráfego aéreo na Europa durante dias. Disse que, quando todo mundo pensa que o vulcão se acalmou, ele irrompe de novo, causando mais problemas. Lula insistiu que a crise não acabou e que "muitos estão pagando pelos excessos de poucos" e a crise exige "medidas difíceis e corajosas". Ele conclamou os países ricos a realmente agirem na reforma financeira internacional, em vez de só fazer discursos. "Que conselho o senhor me dá (para superar a crise)", indagou Papandreau a Lula, quando discutiam a tragédia econômica da Grécia, sob tutela hoje do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos grandes países europeus, enquanto a população protesta na rua contra o arrocho econômico. Lula saiu pela tangente, dizendo que não conhecia a realidade grega. Mas logo listou medidas que adotou, como estimular o mercado interno, ampliar o crédito, que teria passado de R$ 380 bilhões a R$ 1,5 trilhão em sete anos etc. E acrescentou para o líder socialista: "Essa crise não é sua. Sabe o que me deixa constrangido? É que a direita fez a crise e depois obriga a esquerda a fazer os cortes nos salários que eles não fizeram." Para Lula, "há um debate político e não puramente econômico" na crise. E completou: "Temos de mudar o mundo, senão ele muda a gente." E reiterou que a América Latina passa por um "momento histórico de implantação de novo modelo de desenvolvimento, num caminho sem retorno". A conversa de 30 minutos entre os dois, à margem da Cúpula UE-América Latina e Caribe, ilustrou a que ponto a situação econômica global mudou. No passado, o Brasil é que estava no centro do furacão, com sua dívida externa e inflação enorme. Grécia, Portugal e Espanha, no centro da crise do endividamento na Europa, são governados atualmente por socialistas. Mas as situações são diferentes. Na Espanha, o gigantesco déficit público atual veio no rastro de medidas justamente para combater a crise global. Pesquisas apontam uma degringolada na popularidade do Partido Socialista depois dos anúncios de corte de salários do setor público e congelamento das aposentadorias. Sem surpresa, foi a crise global que se impôs na cúpula, que até por causa dos problemas econômicos fez muitos dirigentes sequer aparecerem em Madri, a começar pela chefe de governo alemão, Angela Merkel, pelo italiano Silvio Berlusconi e pelo novo chefe do governo britânico, David Cameron, todos de direita, mas também enfrentando o impacto da crise. Lula conclamou os outros líderes a tomarem medidas para combatê-la. Reclamou que o G-20, o grupo que reúne os líderes das principais nações e espécie de diretório econômico do planeta, não conseguiu até agora decidir efetivamente sobre o que tinha prometido, como o desmonte dos paraísos fiscais, a regulação do sistema financeiro e o corte nos "polpudos" bônus aos executivos das instituições financeiras. (AM)