Título: Temer fecha cerco sobre dissidência pemedebista
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Fonte: Valor Econômico, 17/05/2010, Política, p. A6

O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), reúne a Executiva do partido amanhã na tentativa de conter o risco, crescente, de o seu partido não formalizar a aliança com a candidata do PT a presidente, Dilma Rousseff. Do encontro deve sair uma resolução com um "pré-lançamento" de Temer como vice na chapa e a sinalização de que as decisões do partido, em âmbito regional, serão submetidas à posterior avaliação da Executiva. Com isto, os acordos definidos nos Estados passariam pelo crivo da cúpula.

Jurista, Temer fará uma interpretação extensiva da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a fidelidade partidária. A tese é de que, se há uma coligação em nível nacional para a campanha presidencial, os diretórios regionais deverão seguir essa orientação e apoiar a candidatura nacional, apesar de nos Estados não terem a obrigatoriedade de se coligar com o PT.

O momento da resolução foi estritamente calculado. Faltam três semanas para a convenção, só que na próxima há um feriado na quinta-feira e nesta semana ele estará fora do país. Irá amanhã à noite a Nova York com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que receberá um prêmio da Câmara Americana de Comércio. Dilma também estará nesta viagem com o presidente do BC.

Com a resolução, Temer deixará claro aos serristas Jarbas Vasconcelos (PE) e Orestes Quércia (SP) que a candidata a presidente da República é Dilma e quem assim não se enquadrar estará sob ameaça de intervenção. Espera, com isso, que os dois, pelo menos, sejam comedidos nas críticas a Dilma durante a campanha.

O documento também tentará evitar uma reviravolta na convenção do PMDB no dia 12 de junho, diante da tese da "neutralidade" defendida por pemedebistas de peso em face da insatisfação com o PT em seus Estados. Nos cálculos de Temer, a margem de votos em seu favor (aliança com PT) na convenção hoje é de 150. Outros dirigentes do partido, porém, afirmam que esse número está em 100, com chances consideráveis de que os contrários à aliança virem o jogo. Para esse grupo, o mapa com a divisão dos 803 votos distribuídos nos 27 diretórios estaduais aponta que os maiores e mais decisivos deles para fechar a aliança são justamente aqueles que estão indefinidos ou apoiam a candidatura de José Serra (PSDB), mas ainda assim configuraria um cenário pró-Dilma com placar de 450 a 350 votos. Os números, contudo, confirmam que o maior partido do país, com um quarto dos prefeitos e o maior número de parlamentares do Congresso, pode não ir inteiro para a candidata petista.

Além disso, mostram que há margem considerável para a adoção da tese da "neutralidade". Esse movimento tem ganhado força nos últimos dias à medida que Estados cruciais para consolidar a aliança mantêm-se indefinidos, acirrando-se a disputa entre petistas e pemedebistas. Em dois deles a situação está no limite. Minas Gerais, com seus 69 votos, segundo maior número dentre todos os diretórios do PMDB, olha o cenário com desconfiança e tem assegurado que, sem um acordo fechado antes da convenção nacional que tenha o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa na cabeça de chapa ao governo e o PT na vice, a aliança nacional com os petistas cairia e "colocaria o partido no colo de Serra" pois "Minas forma opinião dentro do partido".

Foi isso que Temer ouviu de Hélio Costa, do presidente do PMDB de Minas, Antônio Andrade, e do deputado Leonardo Quintão. Temer, então, prorrogou a data, mas a incerteza do cenário segue, a ponto de os mineiros adiarem sua convenção estadual para depois da nacional.

Em outro Estado importante, Ceará, com 49 votos na convenção, a situação segue indefinida. O governador Cid Gomes (PSB) aceita dar a vice ao PT desde que tenha como único candidato ao Senado o deputado Eunício Oliveira (PMDB). O PT, porém, tem insistido na candidatura do ex-ministro da Previdência José Pimentel, com o qual Cid não se relaciona desde as eleições de 2006. Um encontro do diretório cearense do PT nesta quinta-feira definirá a posição do partido.

Assim, Minas e Ceará podem juntos, com seus 118 votos na convenção, reverter o quadro da aliança e ainda despertar uma reação em cadeia de outros Estados que, à espreita, apenas aguardam um episódio detonador para saltarem do barco petista. É o caso do Pará, de Santa Catarina, da Bahia e do Mato Grosso do Sul - todos às turras com o PT. Mesmo que não se unam, Ceará e Minas podem também conseguir juntar sua insatisfação à de alguns desses outros Estados e diminuir a margem de 100 votos que hoje garante o apoio formal do partido a Dilma.

Mas para eliminar de vez essa vantagem, teriam de buscar dissidências em Estados tidos como assegurados pelos favoráveis à aliança, o que não é difícil de ser articulado. Os diretórios indefinidos têm vivido uma situação de crescente conflito com os petistas, com prejuízos, segundo alguns, já irreversíveis para uma eventual campanha conjunta entre os dois partidos.

Temer concorda com boa parte das reclamações que têm sido feitas em relação aos problemas regionais da coligação. Para resolvê-las, onde ela não pode ser reproduzida em nível estadual, o encaminhamento que ele tem dado é o de negociar a exata distância que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a máquina federal deverão manter em alguns Estados com palanque duplo, o que tem desagradado os petistas. É a negociação que tem sido feita, por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde o diretório é majoritariamente serrista, apesar de ligado a Temer.