Título: 'Tem gente que precisa de inimigo'
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 21/05/2010, Internacional, p. A12

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem, durante discurso de encerramento da XIII Marcha dos Prefeitos, a postura dos países ricos, que insistem em aprovar sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. "Tem gente que não sabe fazer política se não tiver um inimigo, e eu sou daqueles que só sabem fazer política construindo amigos", disse.

Lula indagou há quanto tempo eles ouviam falar sobre a briga entre os EUA, o Conselho de Segurança e o Irã. "O que eles queriam? Queriam apenas colocar o Irã na mesa para negociar, que o Irã assumisse compromisso com a agência de armas nucleares. O que aconteceu? Nós fomos ao Irã e conseguimos, depois de dezoito horas de reunião, depois de duas viagens do Celso Amorim ao Irã, nós conseguimos que o Irã fizesse aquilo que o Conselho de Segurança queria que fosse feito há seis meses", apontou o presidente.

Lula criticou a desconfiança das potências mundiais do acordo firmado no domingo. "Não gostaram que o Irã aceitasse uma proposta que, anteriormente, era [feita pelo] que não gostam agora".

O presidente também criticou a elite brasileira e a elite jornalística, que, segundo ele, ficam dizendo: "mas o que o Brasil tinha que se meter? Aquilo não é coisa do Brasil". E acrescentou: "mas quem é que disse que era coisa dos Estados Unidos também? Onde é que foi aprovado? Ora, na verdade, nós demos uma contribuição ao multilateralismo, que deveria ser levada em conta, e esse é o jeito do Brasil fazer as coisas, por causa da nossa origem." Lula comparou o diálogo com o Irã ao esforço de um pai para educar seus filhos. "O que resolve é um processo de conversa, de educação. É isso que nós fizemos, discutindo com muita seriedade, junto com a Turquia".