Título: Nem os aliados de Ahmadinejad confiam nele, reconhece Lula
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 21/05/2010, Internacional, p. A12

O presidente Luis Inácio Lula da Silva tem evitado abordar publicamente o acordo entre Brasil, Turquia e Irã, só observando as reações pelo mundo. Mas, em conversas privadas, revela as dificuldades nos detalhes do entendimento e os limites do Brasil a partir de agora.

Lula diz que o país não tem procuração para negociar com ou para o Irã. A única coisa que fez foi "colocar uma cadeira" para o Irã se sentar. Teerã aceitou e se dispôs a discutir seu programa nuclear. "Se vai cumprir ou não, é questão do Irã", tem dito o presidente.

Na conversa com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Lula foi claro sobre a desconfiança internacional em torno do que estavam discutindo: "Todo mundo acha que você não cumpre as coisas, inclusive os teus amigos". E insistiu que o acordo seria a oportunidade de criar um clima de confiança e atenuar um dos maiores focos de tensão internacional.

Mais tarde, o acordo estava praticamente fechado, quando apareceu um físico nuclear iraniano no salão. Ele ficou chamando o principal negociador do Irã e insistiu em mudar algo no rascunho, sob os olhares intrigados dos presentes. Segundo Lula, ele queria tirar "prazos" mencionados no acordo, o que os negociadores recusaram.

O presidente estava consciente dos riscos que corria indo a Teerã. Conta que a primeira coisa que disse a Ahmadinejad foi que estava lá contra a vontade da elite política brasileira, de certos membros do Conselho de Segurança (CS) da ONU e de boa parte dos formadores de opinião. Ou seja, de que "não tinha nada a ganhar".

Alguns assessores tinham "dúvidas", pois um fracasso na mediação podia ser explorado pela oposição no Brasil. Viam risco também nas pretensões brasileiras para obter um assento permanente no CS. Mas Lula diz que "não tem hipótese de subordinar decisões às eleições". E avaliou que valia a pena ir a Teerã tentar "algo importante".

No caminho ao Irã, a mediação de Lula passou por "pressões excepcionais", nos termos de assessores, referindo-se aos EUA. O presidente, de retorno com um acordo, considera que os EUA não podem ver sua missão como um confronto, mas como uma conquista, porque "eles [americanos] é que deveriam ter conversado" com o regime iraniano.

A negociação em Teerã durou 18 horas ininterruptas, das quais quatro entre os presidentes, em reuniões lentas e que refletiam a complexidade e a existência de vários centros de decisão no regime iraniano. Lula não poupa elogios para ao chanceler Celso Amorim.

No dia seguinte, em todo caso, Teerã surpreendeu todo mundo com o anúncio feito pelo diretor da agência iraniana de energia atômica, Ali Akbar Salehi, de que o país manteria o programa de enriquecimento de urânio a 20%. A declaração tirou o foco do acordo com Brasil e Turquia e ampliou a desconfiança de países que querem impor mais sanções ao Irã.

O Irã informou ontem que, se as sanções forem aprovadas no CS, o acordo estará cancelado.

Quando Lula chegou a Madri, vindo de Teerã, telefonou imediatamente para o presidente russo, Dmitri Medvedev, um dos poucos mais ou menos aliados do Irã no CS da ONU. O russo disse que o pacote de sanções contra o Irã estava praticamente pronto, em meio às suspeitas sobre o programa nuclear, mas que o acordo obtido pelo Brasil abria "novos caminhos". Mas não escondeu um certo ceticismo e insistiu que o regime iraniano precisava ainda enviar uma mensagem "forte" ao mundo sobre suas intenções na área nuclear, conforme relato de assessores de Lula.

O Brasil quer agora, junto com a Turquia, participar do P5+1 (EUA, França, Reino Unido, China, Rússia e Alemanha) para atuar nas negociações em relação ao Irã.