Título: CNI quer que BC preste contas à sociedade
Autor: Taquari, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 21/05/2010, Política, p. A8
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) entrega na terça-feira, dia 25, um documento com reivindicações aos presidenciáveis José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV). Na ocasião, a entidade também vai aproveitar o encontro para colocar em discussão a autonomia da autoridade monetária.
Em meio à pré-campanha, o assunto virou arma na disputa entre Serra e Dilma depois que o tucano declarou recentemente que o Banco Central não é a Santa Sé e comete erros. Na época, a petista reagiu e defendeu a condução da política monetária pela instituição durante a crise financeira mundial. A CNI, por sua vez, vai propor um novo modelo de atuação para o BC, com autonomia operacional de fato mas não de direito.
Segundo Flávio Castelo Branco, gerente executivo da CNI, a autoridade monetária precisa estar livre de interferências políticas. A liberdade para atuar, no entanto, não pode ser entendida como independência total, afirma Castelo Branco. "O presidente do Banco Central deve ter um mandato bem definido. Além disso, precisa prestar contas de forma periódica à sociedade e ao Congresso. Ou seja, a instituição não pode ficar livre de qualquer controle", explicou.
Ao apresentar ontem o documento que será entregue aos presidenciáveis, a entidade defendeu que o próximo presidente da República, que será eleito em outubro, dê maior ênfase à política fiscal durante sua gestão. Desta maneira espera que o BC não seja obrigado a elevar a taxa básica de juros, a Selic, sempre que perceber eventuais pressões inflacionárias provocadas pelo aumento da demanda.
"O próximo presidente deve estar atento à necessidade de dar maior ênfase à política fiscal, com a contenção dos gastos públicos. Isso abriria espaço para que a política monetária fosse mais amigável ao setor produtivo, que assim, teria melhores condições para realizar os investimentos", disse o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto.
Para ele, o atual governo promove uma política fiscal expansionista que sobrecarrega o setor produtivo e obriga o BC a elevar a Selic. Armando Monteiro avaliou que para o país manter o sistema de câmbio flutuante, a taxa de juros deve ser compatível com o padrão internacional. Caso contrário, observou, o Brasil continuará com um nível de poupança baixo, além de permanecer atrativo para entrada de capital especulativo.
O presidente da entidade acredita que o país tem condições de crescer nos próximos quatro anos a taxas superiores a 5% ao ano. No entanto, para concretizar essa estimativa, o governo deve assegurar a manutenção da estabilidade, promover reformas macroeconômicas, reforçar a aliança entre os setores público e privado, reduzir a burocracia e criar um ambiente seguro para que a indústria continue com um papel importante para o desenvolvimento da economia nacional.
"A indústria precisa estar no centro desta estratégia. Países que crescem a partir da indústria de transformação, crescem melhor", declarou Armando Monteiro, lembrando que o setor perdeu posições ao registrar nos últimos anos uma queda de suas exportações para os países da América Latina em meio a um avanço de produtos asiáticos na região. Feita toda a lição de casa, a CNI espera que até 2025 a renda per capita brasileira anual possa dobrar dos atuais US$ 10,4 mil para cerca de US$ 20 mil.
Por fim, Armando Monteiro frisou que a entidade não tem um candidato entre os que postulam o cargo, mas enfatizou que enxerga nos três favoritos as condições necessárias para implantar, junto com a iniciativa privada, a agenda de desenvolvimento apresentada ontem.