Título: Crise afeta país por canal financeiro e comercial
Autor: Lamucci, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 24/05/2010, Brasil, p. A4

A crise europeia não deve causar estragos relevantes na economia brasileira, mas o país não vai passar incólume pela turbulência, especialmente por estar em curso uma ampliação expressiva do déficit em conta corrente. Pelo canal financeiro, a situação já não é um mar de tranquilidade, com bancos e empresas enfrentando alguma dificuldade para captar recursos no exterior - há quem já relate alguma desaceleração nas concessões de crédito por bancos que dependem mais do funding externo. A bolsa de valores também tem perdido capital estrangeiro.

Pelo lado comercial, as coisas podem piorar caso a desaceleração da Europa derrube os preços de commodities, os principais produtos de exportação do país. A atividade econômica, por sua vez, deve sofrer pouco, porque o motor do crescimento é a demanda interna.

O ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos, diz que o "canal mais crítico para o Brasil é o externo, pelo lado financeiro". Ele lembra que a deterioração internacional ocorre num ano em que um déficit em conta corrente (o resultado das transações de bens, serviços e rendas com o exterior) pode atingir US$ 55 bilhões, bem acima dos US$ 24,3 bilhões de 2009. Hoje o país precisa de um volume elevado de recursos para a bolsa e a renda fixa para fechar esse rombo, afirma Mendonça de Barros, observando que há um movimento global de fuga para ativos de menor risco.

Ele considera possível o dólar subir para R$ 2 no curto prazo, caso as turbulências na Europa continuem. Na sexta-feira, a moeda fechou em R$ 1,861. No atual cenário, fica complicado e caro fazer operações como a capitalização da Petrobras, diz. Para ele, o Banco Central terá não apenas que parar de comprar dólares como passar a vender a moeda, o que não é um grande problema, dado o nível de reservas, de US$ 250 bilhões. Ele acredita que os investimentos estrangeiros diretos ficarão entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões, um bom volume, mas abaixo dos US$ 45 bilhões estimados pelo BC.

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, diz que a crise na Europa já chegou por aqui "pelo lado da liquidez". Segundo ele, há informações de que bancos que dependem mais de recursos externos para emprestar reduziram o ritmo de concessões de crédito. Por enquanto, diz Gonçalves, há alguma restrição nos volumes emprestados, mas sem alta nas taxas cobradas. Não é um quadro de forte contração do crédito, mas um sinal de que as condições podem ser menos favoráveis daqui para a frente.

A economista Mônica Baumgartem de Bolle, da Galanto Consultoria, vê o impacto mais forte da crise europeia sobre o Brasil pelo canal do comércio. Ela lembra que a zona do euro equivale a algo como 20% do PIB global, uma fatia expressiva. O fraco desempenho econômico europeu vai puxar para baixo o crescimento do mundo, diz Mônica, alertando para o risco de que isso afete significativamente as commodities. Se concretizado esse quadro, a deterioração do déficit em conta corrente pode se acelerar, já que são as expectativas favoráveis para as matérias-primas e seu impacto sobre a balança comercial que levam os analistas a projetar um aumento menos intenso do rombo externo. O mercado estima para 2010 um saldo comercial próximo de US$ 14 bilhões e um déficit em conta corrente de quase US$ 50 bilhões.

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, também acha que o crescimento baixo na Europa afeta o Brasil principalmente via comércio exterior. O impacto sobre a atividade é menos importante, diz ele, que projeta um crescimento do PIB de 6,2% em 2010, uma estimativa conservadora perto dos 7% a 8% projetados por algumas instituições. O ponto é que ele aposta numa desaceleração razoável a partir do segundo trimestre, em função da antecipação de consumo ocorrida nos primeiros meses do ano, quando muitos consumidores foram às compras para aproveitar as desonerações tributárias de bens duráveis como automóveis e eletrodomésticos. Para Borges, a crise na Europa tende a tornar mais difícil um crescimento de 7% a 8%. Já Mendonça de Barros diz que um avanço do PIB na casa de 7% parece contratado, por conta da força da demanda doméstica. Um impactos mais negativo da crise sobre a atividade ficaria para 2011.