Título: Agenda bilateral exclui tema
Autor: Bueno, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 28/05/2010, Política, p. A6

Pouco depois de ter sido eleito em 2005, o presidente da Bolívia, Evo Morales, instituiu novas políticas em relação ao cultivo de folha de coca e aos cocaleiros. Em vez de enviar força policial para destruir plantações, como os governos que o antecederam, Morales deu às famílias dos cocaleiros e seus sindicatos poder de controlar a extensão dos chamados cocales.

A Bolívia permite há anos que agricultores plantem uma área limitada de coca para atender à demanda doméstica de produção de chás e principalmente para o hábito dos trabalhadores rurais e urbanos de mascarem a folha.

A ONU estima que para atender a esse consumo legal na Bolívia, cerca de 9 mil hectares são o bastante. Mas desde 2006, a área plantada disparou e ainda segundo a ONU, os plantios hoje estariam em torno de 35 mil hectares. O que é feito com esse excedente? Pasta-base (o subproduto menos elaborado e mais barato da folha, geralmente usado para o crack) e cloridrato de cocaína (ou cocaína).

Analistas na Bolívia e funcionários da Polícia Federal dizem que as medidas promoveram, sim, um aumento da oferta da coca para o narcotráfico - cujo destino principal é o Brasil. Segundo a ONU, a produção anual boliviana da droga é de cerca de 170 toneladas. A PF calcula que 70% disso vêm para o Brasil.

Mas quem forneceu ajuda decisiva a esse aumento da oferta foi o governo brasileiro. O programa de cooperação técnica e policial tem alcance e orçamento muito limitados. Brasília nunca pôs o tema do narcotráfico, do aumento dos plantios de coca, em sua agenda de negociações com La Paz - embora seja assunto crucial na relação bilateral. Em certo sentido, Brasília optou por deixar aos EUA e seus programas de combate ao narcotráfico na América do Sul o papel de pressionar a Bolívia e seus cocaleiros. Morales, no entanto, reduziu muito a atuação americana ao expulsar a agência americana de combate a narcotráfico.