Título: Bolívia acentua diferenças para política externa
Autor: Bueno, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 28/05/2010, Política, p. A6

A pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, fez duras críticas ontem ao adversário José Serra, do PSDB, que na véspera acusou o governo boliviano de ser "cúmplice" dos traficantes que enviam cocaína para o Brasil. Para a ex-ministra, a atitude do tucano representa uma "demonização" do país vizinho e "não é papel de estadista nem de quem quer ser um estadista".

Dilma e Serra participaram ontem à tarde, em Gramado (RS), do 26º Congresso Nacional das Secretarias Municipais de Saúde, mas não chegaram a se encontrar durante o evento. Na palestra, a petista já afirmou que o Brasil não pode "olhar com soberba os países diferentes de nós" porque "essa é a política que leva à guerra, aos conflitos e ao desprezo por populações diferentes de nós".

Segundo a ex-ministra, o Brasil provou no governo Lula que pode ser "protagonista" nas relações internacionais sem ser "imperialista". Depois, em entrevista, acrescentou que "não é possível a gente sair dizendo de forma atabalhoada que um governo é isso ou aquilo; a gente tem que ser cautela". Para ela, o presidente boliviano Evo Morales garantiu certa "maturidade" à política do país, que antes vivia uma "instabilidade só".

Questionado sobre a repercussão de suas declarações, que gerou protestos inclusive do ministro da Presidência da Bolívia, Oscar Antezana, Serra afirmou que está preocupado com a disseminação das drogas e do crack no Brasil. "E não pode ser uma preocupação só de discurso, tem que ter efeito prático", afirmou o tucano, para quem o governo brasileiro deve "pressionar" o vizinho pelo controle da venda de cocaína para o país.

"Não estou propondo intervenção na Bolívia", respondeu Serra, que não considera necessário "reavaliar" as afirmações que fez. De acordo com ele, é "impossível" que o governo boliviano não consiga controlar o tráfico da droga para o exterior, mas afirmou que o Brasil precisa fazer uma ação diplomática "efetiva e pública" para frear o a entrada da cocaína pela fronteira. "Caso contrário é trololó", afirmou Serra.

Os comentários de Serra foram alvo de críticas do líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Para o deputado, Serra está comentendo "muitas gafes". "O que ele disse sobre a Bolívia é uma agressão a um país vizinho e amigo. Não cai bem para um candidato sério falar dessa forma", disse.

Já o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), afirmou que o governo brasileiro tem sido "muito tolerante" em relação à Bolívia. De acordo com o senador, o tráfico de drogas tem aumentado muito no Brasil, o que tem representado "um drama para milhares de famílias". Ele observou ainda que grande parte da cocaína chega ao país proveniente da Bolívia e sustentou a necessidade de o governo brasileiro ter uma posição "mais dura" em relação ao país vizinho. "O presidente Lula não tem uma posição mais dura por afinidades ideológicas com o presidente da Bolívia, Evo Morales. E nós precisamos ter uma política externa mais objetiva e menos ideológica", sustentou Azeredo.

O senador Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, não crê na possibilidade de as declarações do pré-candidato virem a prejudicar as relações com a Bolívia. Na sua opinião, o problema no relacionamento bilateral refere-se exatamente ao tráfico de drogas. "A Bolívia não é um país sério. O que atrapalha as relações é o tráfico", afirmou.

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR), membro suplente da comissão, lembrou ter feito pronunciamento na tribuna do Senado de crítica ao presidente Lula, por ele ter-se deixado fotografar, em visita à Bolívia em agosto do no ano passado, com um colar feito à base de folhas de coca, ao lado de Morales. "Não me parece ser uma postura didática", disse Dias em seu pronunciamento. "Ao contrário, parece ser um estímulo às drogas."

Segundo o deputado Dr. Rosinha (PT-PR), ex-presidente do parlamento do Mercosul, as palavras de Serra aumentam a apreensão nos países vizinhos. "Se Serra ganhar as eleições, vai governar de costas para a América do Sul", previu. (Com agências noticiosas)