Título: Para médicos paulistas, ensino dos vizinhos é ruim
Autor: Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 31/05/2010, Especial, p. A14

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) se diz preocupado com a formação de estudantes brasileiros no exterior. A entidade questiona a qualidade do ensino nos países vizinhos e cobra mais rigor do governo na revalidação do diploma. "É uma situação que não interessa ao nosso sistema de saúde e no qual o paciente, em última instância, sai como principal prejudicado", diz Isac Jorge Filho, coordenador da comissão de pesquisa e ensino médico do Cremesp.

Jorge Filho evita generalizar, mas lembra que a impossibilidade de fiscalização dos cursos por autoridades brasileiras transforma em incógnita a formação dos futuros profissionais. "Alguns dizem que vão estudar no exterior porque é mais barato. Não sei, a minha impressão é de que vão mesmo porque não conseguiram passar no vestibular."

Uma das maiores preocupações do Cremesp é com a suposta precariedade do ensino em algumas especialidades, além da falta de estrutura. "Chega a haver mil alunos por turma em Cuba. Sabemos de escolas na Bolívia em que os cursos teóricos são ministrados em garagens, literalmente. E a Argentina não tem as mesmas doenças tropicais que o Brasil", diz Jorge Filho.

Ele reconhece que o ensino médico no Brasil "tem piorado sensivelmente". Em outubro de 2009, um exame feito voluntariamente por 621 alunos do sexto ano de medicina no Estado de São Paulo teve resultados pouco animadores: 56% dos participantes foram reprovados, não tendo alcançado a nota mínima de 6 na prova objetiva. "Se as escolas fiscalizadas pelo MEC já são ruins, é preciso ser ainda mais cauteloso com as faculdades do exterior", argumenta.

Para o coordenador do Cremesp, a falta de investimentos em laboratórios e no corpo docente costuma explicar o baixo custo das faculdades de medicina nos países vizinhos. Valdir Carrenho, diretor da Isped, empresa que assessora estudantes brasileiros em universidades argentinas, confirma o contraste de remuneração: enquanto um professor no Brasil ganha cerca de R$ 100 por hora/aula em uma universidade privada de prestígio, o pagamento na Argentina fica em 50 pesos (uns R$ 25).

Carrenho rejeita, porém, que esse seja um fator preponderante na diferença de custo. "Hoje, faculdade de medicina no Brasil virou comércio. Como há mais demanda do que oferta, quem tem curso preenche todas as vagas, a qualquer preço. Na verdade, a medicina argentina está um passo à frente da medicina brasileira", afirma. Para ele, a reação do Cremesp e de outros conselhos regionais ocorre pelo desejo de "manter reserva de mercado", com menos concorrência para os profissionais. (DR)