Título: PMDB prevê 90% dos votos pró-aliança
Autor: Junqueira, Caio
Fonte: Valor Econômico, 11/06/2010, Política, p. A8

A unidade do maior número possível de filiados em torno de uma tese, a aliança com o PT, será o grande diferencial da convenção do PMDB que ocorre amanhã, embora o tradicional enredo de candidaturas presidenciais de última hora e de guerra de liminares para impedir a convenção já esteja se desenhando. A previsão é de que pelo menos 90% dos prováveis 500 convencionais presentes irão ungir o presidente da legenda, Michel Temer (SP), como candidato a vice na chapa presidencial encabeçada por Dilma Rousseff (PT).

A rápida ascensão da petista nas pesquisas eleitorais, culminando no empate em 37% com o principal adversário, José Serra (PSDB), a alta popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os bons índices econômicos foram os fatores externos que apaziguaram as ameaças de dissidência do PMDB na convenção. Internamente, o acordo selado entre os dois partidos para Minas Gerais, com Hélio Costa (PMDB) sendo o candidato a governador e Fernando Pimentel (PT) ao Senado, deram tranquilidade à cúpula pemedebista e afastaram as chances de uma reviravolta amanhã.

Os mineiros, tendo o maior número de convencionais, seriam os únicos capazes de liderar um movimento que levasse o PMDB à neutralidade na campanha. Satisfeitos em sua reivindicação, diminuiu-se a força de mobilização contrária de outros Estados que aguardavam o desfecho de Minas para se posicionar.

Entretanto, seguindo a tradição das convenções pemedebistas, há uma tentativa de oposição à aliança com o PT.

Além da forte posição contrária dos ex-governadores de São Paulo, Orestes Quércia, e de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, o o ex-governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), autorizou o senador Pedro Simon (PMDB-RS) a registrar, anteontem, sua candidatura a presidente. A manobra visa intimidar a cúpula pemedebista a interferir na articulação do palanque paranaense de modo a tirar Osmar Dias (PDT) da candidatura ao Senado para não atrapalhar sua votação. Isso seria feito determinando que o sucessor de Requião, Orlando Pessuti (PMDB), não se candidate à reeleição. Assim, Dias seria o candidato ao governo e Requião ao Senado.

A direção do PMDB, contudo, não irá atender ao desejo de Requião e se reunirá entre hoje e amanhã para não permitir o registro de sua candidatura a presidente. Aí teria início a batalha judicial, já que uma parte alega que o registro está dentro do prazo, outra que está fora. Mas ainda que Requião consiga na Justiça o registro, sua tese irá prosperar. Pessuti apoia a chapa Dilma e Temer e tem o controle de mais de 70% dos diretórios do Paraná, cujos delegados vêm amanhã a Brasília para votar com a cúpula.

Até mesmo alguns Estados em que PT e PMDB são rivais na disputa regional, como Mato Grosso do Sul, estarão na convenção para apoiar Temer. Os grupos em que há intenção de apoiar Serra, presentes no Acre, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo, não devem comparecer para votar. A expectativa é de uma taxa de abstenção na faixa de 30%.

"É difícil ser pemedebista e ter um candidato a vice-presidente decorrente de uma aliança já existente com o governo Lula. Vai querer alguém vir aqui falar mal da economia se o (presidente do Banco Central) Henrique Meirelles é do partido?", diz o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves. A Executiva do partido deve se reunir hoje às 11 horas para negar o pedido de Requião. O mesmo será feito com Antônio Pedreira, pemedebista do Distrito Federal que também registrou pedido de candidatura ao Planalto.

A aliança a ser fechada amanhã terá algumas pendências a serem definidas até o início oficial do processo eleitoral, em 5 de julho. Por um lado, pretende-se acertar os limites de propaganda de Lula e Dilma onde houver palanque duplo de PT e PMDB, como no Rio Grande do Sul (José Fogaça, do PMDB, e Tarso Genro, do PT ) e na Bahia (Geddel Vieira Lima, do PMDB, e Jaques Wagner, do PT). Por outro, há a necessidade de alguns acertos finais entre os dois partidos, como no Ceará, em que o PT força a candidatura do ex-ministro da Previdência José Pimentel ao Senado, contra os interesses do governador Cid Gomes (PSB), que só quer apoiar oficialmente o também ex-ministro Eunício Oliveira (PMDB). Com isso, faria uma aliança branca com Tasso Jereissati (PSDB). A participação de Ciro Gomes (PSB) na campanha eleitoral estaria condicionada, inclusive, a um desfecho sem Pimentel.

Outra pendência é o Maranhão, com a intervenção do PT nacional para retirar o apoio que o PT-MA quer dar a Flávio Dino (PCdoB). A tendência no Estado é da neutralidade, o que beneficia a candidata à reeleição, Roseana Sarney (PMDB), pois tira dois terços do tempo de TV de Dino. Em outros dois Estados antes problemáticos haverá palanque duplo para Dilma. No Pará, Jader Barbalho (PMDB) sairá ao Senado com chapa própria do PMDB, encabeçada por seu sobrinho José Priante (PMDB). Em Santa Catarina, o governador Eduardo Moreira (PMDB) deve disputar a reeleição contra a senadora Ideli Salvatti (PT) com promessa de apoio mútuo no segundo turno.