Título: Lula rebate oposição e deixa Dilma com propostas de governo
Autor: Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 14/06/2010, Política, p. A7
Na convenção do PT que lançou oficialmente a chapa presidencial governista, a candidata do partido, Dilma Rousseff, fez um discurso concentrado em genéricas propostas de governo e na ideia do "continuidade da mudança", claramente preparado, como toda a postura da candidata, para as gravações do programa eleitoral de televisão que vai ao ar a partir de agosto. Coube ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tarefa de atacar a oposição e rebater os discursos da véspera feitos na convenção que formalizou a candidatura de José Serra (PSDB). "Esperamos que os nossos adversários estejam dispostos a fazer uma campanha de alto nível para discutir programas. E não ficar fazendo o jogo rasteiro de inventar dossiê todo dia", disse Lula.
Dilma fez um discurso longo, que não empolgou os mais de 1500 militantes presentes, a despeito dos diversos efeitos especiais e do aparato tecnológico que deu ao evento características de uma grande produção, novamente voltada para a produção dos programas do horário eleitoral gratuita. O que explica também o longo discurso dividido em eixos temáticos, sempre abertos com a frase "Para o Brasil seguir mudando", novo slogan da campanha.
Em cinquenta minutos, Dilma mencionou os principais programas dos oito anos do atual governo para, a partir deles, assumir compromissos em diversas áreas. Para a saúde, uma das áreas com menor grau de satisfação da população, disse ter três prioridades: financiamento adequado e estável para o sistema; valorização das práticas preventivas; e organização dos vários níveis de atendimento, garantindo atendimento básico, ambulatorial e hospitalar de alta eficiência em todos os Estados brasileiros.
Segundo ela, o objetivo é dar um "salto de qualidade" na assistência universal do Sistema Único de Saúde (SUS). Declarou querer ser "a presidente que irá consolidar a infraestrutura no país". Defendeu a reforma política e tributária, prometendo "investir na informatização de todo sistema de tributos para alargar a base da arrecadação e diminuir a alíquota dos impostos" e "completar a desoneração do investimento, por seu forte efeito sobre as taxas de crescimento". Falou ainda sobre política industrial e citou metas para a educação, como a construção de seis mil creches.
O tema da convenção foi a mulher brasileira, uma tentativa de amenizar a forte rejeição da petista entre as eleitoras do país. Para isso, algumas delas, como Maria da Penha, símbolo do combate à violência contra a mulher, foram chamadas para se sentar à mesa do palco, atrás das autoridades. Durante o evento, foram exibidos vídeos com breves perfis de mulheres brasileiras "mulheres que com determinação mudaram o Brasil", como a princesa Isabel, Tia Ciata, Nisia Floresta e Iara Iavelberg. Dezenas de bandeiras roxas com os dizeres "A vez e a voz das mulheres" foram distribuídas e empunhadas por militantes. O preparativo encontrou respaldo no discurso de Dilma, iniciado com um "aqui, nós celebramos a mulher brasileira" e encerrado com "chegou a hora de uma mulher comandar o País". No meio do discurso, foi feita a relação entre ela e Lula: "Para ampliar e aprofundar o olhar de Lula, ninguém melhor que uma mulher na Presidência da República".
As poucas alusões que fez à oposição foram sempre indiretas e reproduzindo o tradicional discurso do PT sobre sua capacidade de fazer inclusão social e governar para os mais pobres: "Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram para um terço da população. Para muitos deles, o resto era peso, estorvo e carga". Foi o momento em que repetiu a linguagem usada por Lula.
Em seguida, concluiu: "Quebramos o tabu e provamos que incluir os mais fracos e os mais necessitados ao processo de desenvolvimento do país é um caminho socialmente correto, politicamente indispensável e economicamente estimulador".
Nenhuma referência ou respostas às críticas que sua campanha vem sofrendo no que se refere à elaboração de um dossiê contra o candidato tucano, ou à montagem de equipes de espionagem. Esse papel foi deixado para Lula, e a candidata está sendo preservada, há 15 dias, de qualquer constrangimento, ficando inacessível a perguntas ou debates que possam provocar respostas que se tornem problemáticas na campanha.
Lula discursou de improviso antes de Dilma: "Dilma e Temer, muita calma, muito sangue frio, porque o bicho vai pegar", disse o presidente. Lula começou atacando a imprensa. "A imprensa cansa de falar mal de mim, e eu acho que faz parte da democracia. Mas em caso de eleição, é preciso que a imprensa seja neutra ou que pelo menos diga que tem candidato, porque aí a gente muda de canal", afirmou. Lula se referia ao espaço no noticiário da TV dado ao candidato José Serra, no sábado, dia da convenção que formalizou a candidatura da oposição, em comparação ao espaço dado às convenções de aliados de Dilma, como PMDB e PDT, também no sábado. Preferiu não esperar o noticiário sobre a convenção que formalizou a candidatura de Dilma, ontem.
O presidente exaltou o que considera vitórias de sua gestão, citou números e pediu ao eleitor considerar Dilma o Lula no visor da urna eletrônica. "Essa vai ser a primeira eleição desde a redemocratização que não vai ter meu nome lá na cédula. Vai ficar um vazio nessa cédula e para que esse vazio seja preenchido eu mudei de nome e vou colocar Dilma lá na cédula".
Ele disse que "as possibilidades de ganhar as eleições são totais, quase absolutas", mas que é preciso evitar o salto alto.
Temer dividiu a mesa com outros presidentes de partido, como Alfredo Nascimento (PR), Eduardo Campos (PSB), Renato Rabelo (PCdoB) e José Eduardo Dutra (PT). Além desses, estavam a primeira-dama Marisa Letícia, o vice-presidente José Alencar (PRB) e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB). A candidata Dilma Rousseff viaja hoje e passa uma semana na Europa, para contatos com governos e gravação do programa de TV.