Título: Brasil espera governo mais conciliador após eleição na Colômbia
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 18/06/2010, Internacional, p. A9

A provável eleição do candidato governista Juan Manuel Santos para a presidência da Colômbia, neste domingo, poderá ser acompanhada de maior aproximação com o Brasil, apesar do perfil conservador do futuro eleito, acreditam importantes integrantes do governo brasileiro. Em conversas reservadas, para evitar interferência no processo político do país vizinho, auxiliares de Lula dizem acreditar que Santos abrandará a inimizade com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. O governo brasileiro já recebeu sinais de interesse na cooperação com o Brasil.

Santos, companheiro do presidente Álvaro Uribe no Partido de la U, de centro-direita, apareceu na última sondagem eleitoral, divulgada na semana passada, com 66,5% das intenções de voto no segundo turno da eleição presidencial. O candidato opositor, o ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, do Partido Verde, tinha 27,4% das intenções.

Ex-ministro da Fazenda e da Defesa de Uribe, Santos se beneficiou na melhora de indicadores econômicos obtidos durante os dois mandatos do atual presidente (ver gráficos abaixo) e dos seguidos golpes na estrutura das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e de outros grupos armados. Durante a campanha vem prometendo manter as políticas de segurança e a linha economica de Uribe.

A expectativa de uma aproximação maior da Colômbia com o Brasil foi reforçada no Itamaraty com uma visita do principal assessor econômico do candidato, Juan Carlos Echeverry, à Embaixada do Brasil em Bogotá. O contato é citado em Brasília como exemplo dos gestos feitos pela equipe do provável sucessor de Uribe em direção ao Brasil.

O gesto chegou a ser noticiado pelo Valor, em entrevista com o próprio Echeverry, no começo da semana: Santos quer apoio da Embrapa e cooperação do Brasil para desenvolver a agricultura colombiana.

Um graduado diplomata brasileiro lembra que há regiões na Colômbia, como o vale do Cauca, com produtividade para a cana maior que a de São Paulo, embora com extensão muito menor. A progressiva derrota da guerrilha e a normalização das atividades agrícolas podem levar a Colômbia ao posto de segunda maior economia do continente sul-americano, comenta um dos principais assessores de Lula para a região.

As recentes declarações, tanto de Echeverry quando de Santos, levam diplomatas e assessores do presidente Lula a acreditar que, uma vez no governo, ele deverá seguir a política de Uribe de fortalecimento das relações com o Brasil.

O próprio Uribe, depois de um início de mandato muito ligado ao governo dos Estados Unidos, passou pela decepção de ver paralisada aprovação do acordo de livre comércio entre os dois países e aproximou-se das iniciativas do Brasil para a América do Sul. Mais recentemente, talvez na expectativa de ter apoio americano a um terceiro mandato, Uribe teria se voltado novamente aos EUA, e, de novo, se decepcionado.

Um importante ministro de Lula compara o caso da Colômbia à eleição recente de outro candidato conservador, Sebástian Piñera, no Chile.

Na última reunião da Unasul, a primeira com a participação de Piñera, o chileno apoiou a decisão de Lula, de boicotar a reunião União Europeia-América Latina, caso Honduras fosse convidada ao encontro com os governos sul-americanos. E, conciliador, sugeriu ideias para apresentar aos europeus, sobre condições para retorno de Honduras à convivência com os governos da região.

Há esperança de que Santos possa adotar, como Piñera, uma posição conciliadora, após as eleições, inclusive em relação a Chávez, com quem já teve desentendimentos públicos. Não há nenhuma certeza, porém, sobre qual será o comportamento do provável futuro presidente, e os mesmos que comentam com otimismo a chegada de Santos ao poder admitem temer que ele volte atrás na tendência do governo Uribe em participar mais das iniciativas promovidas pelo Brasil, como a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa e a coordenação regional para o combate ao narcotráfico.