Título: Copom mostra preocupação com piora das expectativas de inflação
Autor: Travaglini , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 18/06/2010, Finanças, p. C2
O Comitê de Política Monetária (Copom) avalia que "permaneceram elevados os riscos à concretização de um cenário inflacionário benigno", de acordo com a ata da última reunião, na semana passada, quando o Banco Central (BC) elevou a Selic em 0,75 ponto percentual, para 10,25% ao ano. A preocupação do BC está na piora das expectativas dos agentes e no impacto disso para o que a autoridade monetária chama de cenário prospectivo de inflação.
O texto é bastante similar ao registrado no encontro anterior, no fim de abril, mas traz duas novidades. A principal é que os cenários de mercado, rodados pelo BC com dados coletados pela pesquisa Focus, sinalizam que o aperto esperado pelos analistas, com duas novas elevações de 0,75 ponto percentual, podem não ser suficientes para fazer com que o IPCA caminhe em direção ao centro da meta de 4,5% no próximo ano.
De acordo com o documento, o cenário de mercado, que até abril posicionava as projeções "ao redor" do valor central da meta, apresentou elevação desde o último encontro e agora se mostra "acima" do centro da meta de inflação. Para Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, essa observação começa a colocar em dúvida a previsão do Focus de um aperto total de três pontos percentuais. "O modelo mostra que mesmo com esse aumento a inflação permanece acima da meta no próximo ano."
O economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, já alterou sua projeções tanto para o movimento total de alta da taxa básica quanto para o ritmo de elevação que será executado pelo BC. Em relatório, o economista afirma que a Selic pode chegar a 13% ao ano em janeiro do próximo ano, um ponto acima do que havia projetado anteriormente, com mais cinco elevações consecutivas.
A segunda mudança relevante da ata em relação ao encontro de abril é a avaliação dos impactos da crise europeia. Até maio, a autoridade monetária dava relativa importância à elevação dos preços das commodities para a inflação brasileira. Com o novo balanço de riscos, o Copom não descartou essa influência, mas jogou para o campo das incertezas um possível impacto dos problemas na Zona do Euro.
"A influência do cenário internacional sobre o comportamento da inflação doméstica se revela mais ambígua, conquanto persista incerteza sobre o comportamento de preços de ativos e de commodities em contexto de piora das condições financeiras internacionais", diz o texto do Copom.
De acordo com a autoridade monetária, os riscos inflacionários estão limitados ao âmbito interno, "derivados da expansão da demanda doméstica, em contexto de virtual esgotamento da margem de ociosidade na utilização dos fatores de produção".
O BC avalia que as "evidências do estreitamento do mercado de fatores vêm da aceleração dos ganhos reais de salários no passado recente em alguns segmentos e de maiores pressões de preços ao produtor". Dessa forma, "aumenta também o risco de repasse de pressões de alta de custos para os preços no atacado e destes para os preços ao consumidor".