Título: Flexibilização da política cambial à moda chinesa
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2010, Opinião, p. A12
O governo chinês anunciou sábado a decisão de flexibilizar a política cambial e permitir a desvalorização gradual do renminbi, a moeda do povo, mais conhecido internacionalmente como yuan.
Ao fixar a paridade de 6,7980 yuans por dólar, ontem pela manhã, o mais alto patamar em cinco anos, o banco central chinês sancionou a desvalorização de 0,43% realizada pelo mercado na segunda-feira, dia que começou com a cotação de 6,8275 yuans por dólar. No fechamento de ontem, o yuan acabou caindo 0,23%, para 6,8136 por dólar. A moeda chinesa pode ser negociada com uma variação de 0,5% abaixo ou acima do ponto de referência fixado.
O anúncio do governo chinês foi recebido com desconfiança, inicialmente, uma vez que a mudança já havia sido sinalizada em abril, mas não foi colocada em prática. O terremoto devastador que atingiu a região oriental do país e a turbulência na Europa teriam feito o presidente Hu Jintao hesitar e adiar o plano.
A China divulgou poucos detalhes a respeito da sua nova política cambial. O ponto mais importante é que o yuan deixou de ser atrelado ao dólar. Provavelmente, passará a ser calibrado em relação a uma cesta de moedas, em que o dólar e o euro terão os pesos mais relevantes.
Há quase cinco anos, em 21 de julho de 2005, a China já havia abandonado o câmbio atrelado ao dólar e adotado uma taxa calibrada em relação a uma cesta de moedas. Apesar disso, o yuan se fortaleceu pouco nos dois anos seguintes. Enquanto isso, a China ia acumulando elevados superávits em conta corrente e reservas internacionais astronômicas. Entre 2007 e 2008, porém, o yuan se valorizou substancialmente, o que foi compensado com medidas fiscais como a redução de impostos para a exportação.
A crise internacional fez, porém, a China abandonar a flexibilização e voltar ao câmbio atrelado ao dólar. Embora oficialmente possíveis, as flutuações eram neutralizadas pela atuação incansável do banco central chinês. Calcula-se que as compras diárias de divisas atingiam US$ 1 bilhão. O sinal de alerta foi dado quando a economia chinesa sofreu forte desaceleração em consequência da crise global, que minou seus principais mercados internacionais. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês anualizado despencou de 14% no segundo trimestre de 2007 para 6,1% no primeiro trimestre de 2009 e 7,9% no segundo trimestre daquele mesmo ano.
Neste ano, porém, a reação econômica foi forte. No primeiro trimestre, a China cresceu 11,9% em termos anualizados e as exportações saltaram 48,5%. Esses dados deram ao governo de Pequim segurança para mudar o câmbio - muito gradualmente como prefere agir.
Quanto o yuan vai se apreciar é uma incógnita. O mercado futuro previa uma valorização de 3% neste ano, não muito distante dos 2% esperados antes do anúncio oficial. Especialistas como Jim O " Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, falam em 5%. Os percentuais são pequenos perto de outras contas. Os economistas ligados ao Peterson Institute for International Economics (PIIE), Morris Goldstein e Nicholas R. Lardy, calculam que o yuan precisaria subir entre 15% e 25%.
O timing para a mudança foi escolhido a dedo: ao anunciar a medida antes da reunião do G-20, a China sai dos holofotes e escapa da saraivada de críticas das outras nações.
Se a receita de crescimento era boa para a China, era ruim para boa parte do resto do mundo porque era viabilizada à custa da expansão dos outros países. Para o economista americano Fred Bergsten, também do PIIE, a China está exportando grandes "doses de desemprego para o resto do mundo", incluindo Estados Unidos, Europa e mercados emergentes como o Brasil, Índia, México e África do Sul.
Até o presidente Lula chegou a queixar-se do avanço chinês sobre o mercado argentino, no início do ano. Estudo da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), apurou que a China conseguiu ampliar em US$ 17 bilhões as vendas de produtos que competem com os brasileiros na América do Sul, entre 1995 e 2008, passando de exportadora de quinquilharias a bens de maior valor agregado, como eletrodomésticos. Já o Brasil aumentou em apenas US$ 665 milhões as vendas de bens que competem com os chineses.
Os chineses nunca foram transparentes em sua política cambial. A única coisa segura até agora é a prometida pelo BC : não haverá grande valorização e, sim, basicamente, uma quase estabilidade.