Título: Empresas medem apetite e tentam emplacar emissões
Autor: Pinto, Lucinda
Fonte: Valor Econômico, 08/07/2010, Finanças, p. C1
de São Paulo
Uma fresta se abriu no mercado internacional para emissões de bônus e grandes empresas começam a testar o espaço para concluir operações que vêm sendo planejadas há meses. E que, em alguns casos, foram interrompidas há dois meses, diante do aumento da aversão ao risco no mundo. BM&FBovespa, CSN, Banco Mercantil do Brasil, Banco Votorantim, Magnesita, Sabesp e Gol estão tateando o mercado para tentar captar antes que as férias no Hemisfério Norte adiem por outros dois meses seus planos.
A aproximação do mercado externo acontece ainda com alguma cautela. Segundo executivos do mercado financeiro, BM&FBovespa e CSN estão na rua com os chamados "non-deal road show". Ou seja, está fazendo reuniões com investidores para apresentar as respectivas empresas, porém, sem o compromisso de concretizar a venda dos papéis da dívida. Se, ao final, perceberem condições interessantes de prazo e preço podem partir para a emissão imediatamente, sem a necessidade de novo road show. Mas, se constatarem que terão de pagar demais para captar, então a operação não acontece, sem que fique caracterizado um insucesso da oferta, algo sempre temido pelas empresas. "Emissores estão tateando o mercado para ver se podem captar por cinco ou 20 anos, e que preço terão de pagar por isso", afirma um profissional.
Segundo informações de profissionais de mercado, BM&FBovespa pretende captar até US$ 600 milhões, que seriam destinados à ampliação de sua participação na Chicago Mercantil Exchange (CME) - o que já foi confirmado oficialmente pela própria bolsa brasileira. Procurada pelo Valor, a BM&FBovespa apenas informou que mantém contato permanente com o mercado externo, sem confirmar a realização do non-deal road show.
No caso da CSN, a operação pode ser de até US$ 1 bilhão, com o objetivo de rolar dívidas que vencem entre 2011 e 2012. A siderúrgica estaria buscando captar a um prazo de, pelo menos, dez anos. A empresa afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que não vai comentar o assunto.
Segundo informações publicadas ontem pela agência "Dow Jones", o Banco Mercantil do Brasil também estaria esperando o melhor momento para emitir um bônus em dólares de 10 anos, com taxa de retorno de referência de 9,75%. O BofA Merrill Lynch e o Santander seriam os coordenadores da colocação. Os recursos devem ser utilizados para expansão da carteira de crédito a clientes corporativos do banco, entre outras finalidades.
Fontes citam ainda que Banco Votorantim, Sabesp e Magnesita - essa última, também realizando non-deal road show - estariam intensificando nos últimos dias os contatos com investidores no exterior para medir a temperatura para novas captações.
A ofensiva de empresas de primeira linha, especialmente CSN e BM&FBovespa, é vista por especialistas como um importante teste da melhora de humor, que começou a ser observada nas últimas duas semanas. E que abriu espaço para que o banco Cruzeiro do Sul captasse US$ 200 milhões em bônus no início de julho.
"Depois de dois meses de forte contração de liquidez, as empresas estão "colocando a cabeça para fora" para ver a que preços e prazos seria possível emitir", afirma um analista de um banco de São Paulo, que prefere não se identificar. "Mas, diante dos riscos que ainda existem no mundo, não acho tão óbvio que essas operações aconteçam."
De fato, a preocupação com a recuperação das economias da Europa e Estados Unidos e também com o ritmo de crescimento da China continua no cenário, limitando o apetite por risco entre investidores globais. E o temor de recessão só fez crescer nas últimas duas semanas, com a divulgação de indicadores fracos da economia mundial. Mas, agora, o que motiva a busca por recursos no exterior é a percepção de que há muito dinheiro empoçado nas mãos de fundos. E o Brasil é uma excelente opção de destino para esse dinheiro todo que está "queimando" nas mãos dos investidores. Afinal, o país não oferece risco fiscal, nem de crescimento, como os países que estão no centro da crise internacional.
Ainda assim, há profissionais que acreditam que, mesmo com todo o apetite, qualquer emissão neste momento seria feita com prêmios mais altos. "Os juros dos títulos do Tesouro americano estão nas mínimas, o que elevaria o spread de qualquer operação e tornaria o custo de internalização dos recursos captados muito elevado", explica um executivo. "A decisão de colocar os bônus agora vai depender da pressa das empresas."