Título: Relações externas têm estreia barulhenta na campanha
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 26/07/2010, Opinião, p. A12

Pode ter sido uma iniciativa da estratégia de campanha, mas nem por isso foi bem a estreia do jovem candidato a vice-presidente na chapa do PSDB, deputado Índio da Costa (DEM-RJ), ao relacionar o Partido dos Trabalhadores com o tráfico internacional de drogas por causa da notória relação do partido com as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farcs).

O próprio Índio da Costa reduziu o tom e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já tratou de apenar o deputado nos termos da lei, como determina a boa prática democrática.

Nem por isso deve-se considerar o assunto esgotado: a candidata do PT, Dilma Rousseff, ainda deve uma resposta satisfatória sobre seus planos em relação às Farc. Dilma e os outros dois principais candidatos a presidente, José Serra (PSDB) e a senadora Marina Silva (PV).

O deputado Índio da Costa tentou ser cartesiano e acabou sendo apenas leviano: o PT tem ligações com as Farc, as Farc são cúmplices do narcotráfico, logo o PT está ligado ao tráfico internacional de drogas. Trata-se de uma associação irresponsável, que nem por isso exime o PT e sua candidata à sucessão de Lula de dar ao público alguma explicação.

A discussão sobre as relações do PT com as Farc entrou pela porta dos fundos da campanha eleitoral. Mas é certo que a discussão serviu para expor as relações perigosas que o partido e seu governo insistem em manter com verdadeiros párias da comunidade internacional e pelas quais precisam assumir responsabilidade.

As Farc são apenas um exemplo desse tipo de relação. Mas o contencioso petista é maior, portanto, não será surpresa se a política externa do governo ganhar um inédito destaque na campanha eleitoral brasileira.

Caso de "relação perigosa" é a aproximação do governo do PT do regime teocrático do Irã, denunciado nos fóruns internacionais por desrespeito sistemático aos direitos humanos, um dos pilares da democracia. A aproximação com o Irã, até agora, rendeu apenas a desconfiança internacional de que o governo brasileiro pode ter retomado seus planos de construir um artefato nuclear, como ocorreu à época do regime dos generais. O assunto Irã chegou para ficar na campanha sucessória.

Outra má companhia brasileira é Hugo Chávez, presidente da Venezuela, um chefe de Estado que tenta se perpetuar no poder e hoje é um dos fatores de instabilidade da região.

Isso sem falar de Cuba, parceria que custou um pedaço da projeção política internacional positiva do presidente Lula. É bom recordar que um preso político morreu durante uma viagem do presidente a Havana, quando ele declarou que em Cuba não havia presos políticos e sim bandidos comuns.

Há muito que as Farc deixaram de ser o sonho de libertação revolucionária que magnetizava a juventude do fim dos anos 50 e início dos anos 60. Isolado, o grupo fez associações com o narcotráfico, aderiu ao sequestro em troca de resgate e ficou famoso por causa dos métodos pelos quais trata seus "prisioneiros de guerra". Certamente não era nisso que pensava Che Guevara ao internar-se nas selvas da Bolívia. Nem os integrantes do PCdoB, aliados do PT, ao enviar seus militantes para a guerrilha na Amazônia. Como criminosos comuns, as Farc foram rejeitadas pela sociedade colombiana, que acaba de eleger mais um presidente da República adepto da "linha-dura" no combate à "guerrilha".

O PT é um partido que nasceu revolucionário. Houve época em que sua relação com as Farc poderiam até fazer algum sentido. Hoje, não mais. Aos 30 anos, oito dos quais no exercício da Presidência do maior país da América do Sul, é um partido maduro o suficiente para compreender que sua posição sobre o grupo colombiano tem reflexos sobre o papel do Brasil nas negociações continentais.

Agora mesmo o país se vê na contingência de mediar um conflito na vizinhança - o rompimento de relações entre Colômbia e Venezuela, não por acaso tendo como pretexto as Farc. Sua chance de êxito depende do grau de isenção com que se sentar à mesa de negociação.

"É baixaria", "desespero de derrotados", tem sido a resposta mais frequente do PT quando questionado sobre essas perigosas relações. Nenhuma linha sobre o que o partido atualmente pensa sobre esse anacronismo chamado Farc.

A campanha é o momento para os candidatos assumirem posição não só sobre as Farc, mas também sobre outras ligações tão ou mais perigosas quanto aquela denunciada de modo inconsequente por Índio da Costa.