Título: Serra reavaliará Mercosul e Dilma fortalecerá o bloco
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 05/08/2010, Política, p. A8
O Mercosul será prioridade da política externa do futuro governo, seja ele de Dilma Roussef (PT) ou José Serra (PSDB), mas com tratamento muito diferente entre um e outro, informaram dois dos principais conselheiros em assuntos internacionais dos candidatos. Num governo Dilma, seriam fortalecidos mecanismos de integração produtiva e instrumentos financeiros como comércio em moeda local, anunciou o assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia. Num governo Serra, haverá maior exigência de respeito às regras, e uma reavaliação do Mercosul, se preciso transformando-o em área de livre comércio, previu o embaixador Sérgio Amaral.
A defesa da manutenção das atuais políticas para propriedade intelectual foi um dos poucos consensos no debate, promovido ontem em Brasília pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) entre dois personagens com chances de destaque no próximo governo (Garcia é o principal teórico de relações internacionais do PT e Amaral é cotado para ministro de Relações Exteriores de Serra).
Amaral, diretor internacional da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Centro de Estudos Americanos, acusou o governo de fazer concessões aos vizinhos - como o aval a medidas protecionistas ou o ingresso apressado da Venezuela no Mercosul - que desmoralizam as regras do direito internacional e desorientam os investidores. Ele defendeu a criação de um projeto alternativo à Área de Livre Comércio das Américas, defendida no passado pelos Estados Unidos, e à Aliança Bolivariana dos Povos da América (Alba), impulsionada pela Venezuela.
Para Amaral, o aprofundamento da união aduaneira no Mercosul seria desejável, mas, na impossibilidade disso, o Brasil tem de ter maior flexibilidade, e resistir à ideia de que as assimetrias no comércio com países menores são sempre negativas. "Se fosse assim os países do Caribe não estariam tão interessados em integrar-se com os EUA."
"Precisamos nos aproximar dos valores da sociedade, dos quais estamos nos afastando", defendeu, citando a aproximação com o Irã como ação que pode "dar um tiro no pé" nas pretensões brasileiras a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ele comentou que, apesar da diversificação de parceiros comerciais, a pauta de exportações concentrou-se e as fatias da América Latina e da África como mercado do Brasil diminuíram, em relação aos anos 90.
Garcia negou as acusações de que o governo é "ambivalente" no combate pelos direitos humanos e afirmou que a política externa do governo e de sua eventual sucessora deu maior relevância que os governos anteriores a temas como solidariedade e luta internacional contra a pobreza e aos "avanços democráticos que tivemos no continente". "O Brasil não é agência certificadora, cuidamos do nosso pedaço e procuramos políticas ativas", comentou Garcia. "Só não nos comportamos como uma ONG", disse. "Respeitamos as ONGs sobretudo aquelas que defendem direitos humanos", acrescentou imediatamente.
Garcia lembrou que o atual governo dobrou a verba do Itamaraty e argumentou que a maior proximidade com os países do Sul não se deu por "terceiro-mundismo", mas por defesa de alianças em um mundo "multipolar", sem uma única potência no comando. Ele lembrou as decisões recentes do Mercosul, de melhoria da tarifa externa comum e integração nas alfândegas, para mostrar que o bloco, ao contrário do que disse Amaral, não está paralisado.
Enquanto Amaral defendeu "maior coordenação entre empresas e governo", Garcia defendeu as concessões a países como Paraguai (financiamento de uma linha de transmissão de Itaipu a Assunção) e Bolívia (aceitação da nacionalização do gás) como respeito à lei e uma forma de incluir os países vizinhos no processo de desenvolvimento vivido pelo Brasil.
"Devíamos dedicar atenção grande à integração sul-americana, fortalecendo mecanismos de integração produtiva", defendeu. Amaral disse concordar com os esforços de integração produtiva , apontou queda na fatia de mercado do Mercosul no Brasil, apesar d e todas as concessões. "O Mercosul corre o risco de se tornar irrelevante", previu.