Título: Saída keynesiana para a crise europeia
Autor: Assis , J. Carlos
Fonte: Valor Econômico, 05/08/2010, Opinião, p. A15
Há uma conspiração em curso contra a recuperação econômica europeia. Os principais governos da região, impulsionados pela conservadora Alemanha, estão adotando cortes fiscais em série para, supostamente, acalmar os mercados em relação a sua solvência.
O receituário aplicado virtualmente à força na Grécia está sendo adotado voluntariamente pela Espanha, Portugal, Itália e Inglaterra, sem mencionar a própria Alemanha. Com isso, teremos, nos principais países europeus, o agravamento de uma crise de demanda e de investimento superposta à crise financeira.
O fato é que a Europa se encontra numa rígida armadilha ideológica que a impede de coordenar uma saída comum para a crise. Somos vítimas de uma crise global, que afeta principalmente os países industrializados avançados, mas não só eles. A demanda mundial se contraiu. O comércio internacional caiu 12,2% em 2009, em volume, e cerca de 25% em valor. Este ano está se recuperando, porém em ritmo bem aquém do nível de 2007. Nesse contexto, o receituário ortodoxo de combate a crises do FMI não tem como funcionar.
Fazendo abstração das nefastas consequências sociais e políticas do receituário típico do FMI, ele de fato pode funcionar, no espaço estritamente econômico, no sentido de que as restrições fiscais e monetárias que impõe reduzem o potencial de demanda interna e liberam bens e serviços para exportação, restaurando o equilíbrio externo e fiscal da economia. Contudo, é óbvio que, do outro lado, deve haver alguém com disposição de comprar. Do contrário, a redução do consumo interno não tem contrapartida no aumento da demanda externa, e o efeito será uma contração geral .
Não creio que o mundo esteja disposto a aumentar as compras de bens e serviços gregos, espanhóis, italianos, portugueses e ingleses, só porque os respectivos governos decidiram adotar profundos cortes fiscais a fim de reduzir o consumo interno. A estratégia dos ricos é exatamente a oposta, de aumentar exportações. A Ásia é a única região do mundo que continua a ampliar importações, com o crescimento de China e Índia ultrapassando 8% este ano. Entretanto, seu interesse maior é importar matérias-primas, do Brasil inclusive, e não manufaturados em geral, exceto produtos de alta tecnologia alemães e norte-americanos.
A retomada do crescimento europeu é altamente dependente do desempenho da economia americana, e vice-versa. A retomada americana, por sua vez, dependerá também da reestruturação do sistema bancário, cujos empréstimos se contraíram 7,5% no ano passado e seguem estreitos (menos 5,5% este ano), sobretudo para pequenas e médias empresas - que geraram 64% do emprego novo nos EUA nos últimos 15 anos, mas perderam 5 milhões desde a crise. O crescimento anualizado perdeu vigor: 5% no último trimestre de 2009, 3,7% no primeiro trimestre deste ano e apenas 2,4% no segundo.
O governo Obama certamente fez um esforço considerável para reverter a crise, junto com a China: os dois países adotaram programas de estímulo fiscal da ordem, respectivamente, de mais de US$ 787 bilhões e mais de US$ 540 bilhões. A Europa, contudo, e principalmente a Alemanha, se comportaram como vizinhos oportunistas: estão tentando surfar na onda de retomada criada pelos outros.
O mais dramático é que existe uma espécie de consenso europeu em torno de medidas fiscais restritivas para "acalmar" os mercados. É puro suicídio. É uma leitura equivocada da natureza da crise. O mundo está diante de uma crise financeira que se tornou crise fiscal e crise de demanda, e não de uma crise fiscal que se tornou crise financeira. Antes dela, todos os países da área do euro, fora a Grécia, vinham reduzindo seus déficits e suas dívidas públicas. Não houve nenhuma evidência de farra fiscal na região. O que houve foi o forte impacto fiscal do socorro aos bancos.
Os ortodoxos costumavam descartar a política ancicíclica de tipo keynesiano pelo fato de os estímulos fiscais, numa economia aberta, poderem vazar para fora do país, reduzindo o efeito multiplicador da demanda e do investimento internos. Pois bem, chegamos a um ponto em que a economia mundial é uma só. Se houver coordenação das políticas, os vazamentos recíprocos se compensarão.
Em termos práticos, como se aplicaria uma política keynesiana em escala planetária para reverter a atual crise? Seria o exato oposto do que se vem fazendo na Grécia, na área do euro e na Inglaterra. Teria que se ampliar o gasto público para aumentar o consumo e o investimento, independentemente da situação fiscal inicial, até o momento em que se chegue às vizinhanças do pleno emprego. Não haverá qualquer razão para que da expansão monetária resultem pressões inflacionárias. Há deflação na área do euro, e o desemprego é tão elevado, na faixa superior a 10%, que existe inequívoca capacidade ociosa na economia. A retomada da demanda induzirá a retomada do investimento, e ambos animarão o emprego e o comércio exterior.
J. Carlos de Assis é economista e professor de Economia Internacional da UFPA, autor de "A Crise da Globalização"
O articulista Martin Wolf, editor do FT que escreve semanalmente neste espaço, está de férias e só retorna em setembro.