Título: Crise na Europa pode facilitar acordos, dizem empresários
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2010, Brasil, p. A3

de Brasília

A crise financeira mundial deixou o Brasil em melhores condições para negociar acordos bilaterais com a União Europeia, na opinião de investidores presentes ontem no encontro empresarial Brasil-União Europeia em Brasília. Segundo Ingo Plöger, presidente da IP Desenvolvimento Empresarial e Institucional e acionista da Melhoramentos, foi a primeira vez que ele ouviu uma manifestação dos europeus contra os subsídios ao setor agrícola, referindo-se ao presidente da Federação Belga de Automóveis, Pierre-Alain De Smedt. "Esse encontro foi importante para sentir que existe uma flexibilidade e que os europeus estão buscando alternativas", disse.

Maurício Alvarez, diretor comercial da fabricante austríaca de refrigeradores comerciais AHT, conta que enquanto as vendas da empresa ao Brasil cresceram 30%, ela sofreu uma queda de 20% no mercado europeu. "Mesmo após a recuperação da crise, o fato é que as companhias terão que sair da Europa para crescer e o Brasil é um mercado promissor", disse. Ele afirmou que a maior atratividade do Brasil já influencia nas negociações, mas que ainda é muito cedo para ver resultados. A empresa exporta para o Brasil há quatro anos e tem conseguido crescer cerca de 30% ao ano no volume de vendas. Alvarez vê potencial, porém, de dobrar esse ritmo. "Aí entra a discussão bilateral, pois o Brasil cobra 14% de imposto para a importação do nosso produto, e isso nos tira competitividade."

Piet Van Riet, diretor da belga Bekaert, já presente no Brasil em parceria com a ArcelorMittal, afirmou que o que preocupa os investidores focados em se instalar no território brasileiro são os custos de produção. Apesar do mercado consumidor ser atrativo, problemas como infraestrutura inadequada e alta tributação são fatores inibidores. "São os mesmo problemas enfrentados pelos produtores brasileiros, e mesmo com a crise, até o custo da mão de obra cresceu", disse ele, ressaltando que é preciso assegurar a competitividade da cadeia industrial brasileira para aproveitar o momento propício para a atração de novos negócios.

Os empresários brasileiros e europeus concordam que é preciso resolver a questão tributária no Brasil, tanto em relação à complexidade do sistema, quanto às altas alíquotas. Após o encontro, os empresários entregaram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, e ao presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, uma declaração reivindicando redução da carga tributária no Brasil, entre outros pleitos.

O encontro empresarial foi focado na apresentação dos resultados positivos das empresas multinacionais no setor de telecomunicação no Brasil, como Telefônica, Oi e TIM. José Armando Campos, presidente do conselho de administração da ArcelorMittal, considera que os painéis destacando o bom desempenho dessas empresas servem para mostrar aos empresários europeus que o país não restringe a participação de estrangeiros no setor de serviços. "É bom desmistificar esse ponto na nossa negociação. Conta a nosso favor", disse ele. No setor de aço, ele explicou que não há grandes problemas em relação ao acesso ao mercado europeu porque há muita complementaridade entre as indústrias. No entanto, ele reforça que a questão tributária no país tem prejudicado os acordos bilaterais. "É preciso dar mais gás para as empresas brasileiras negociarem no mercado internacional", disse.

Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), criticou o governo federal por não dar prioridade aos acordos bilaterais. "Talvez o governo ache que tenha que ser feito via Mercosul. Eu acho que seria mais fácil o país negociar sozinho porque há divergências entre o Brasil e a Argentina, por exemplo."

Andrade lembra que, se por um lado a crise tornou o mercado brasileiro atrativo aos europeus, por outro as empresas brasileiras estão sofrendo com a queda da atratividade do seu produto no exterior. "Assegurar a competitividade das nossas empresas passa por combater o protecionismo na Europa, mas as negociações têm avançado muito lentamente", disse.