Título: Países buscam acordo sobre máquinas agrícolas e autopeças
Autor: Rittner , Daniel
Fonte: Valor Econômico, 12/08/2010, Brasil, p. A4

Reunidos desde ontem para discutir o comércio entre Brasil e Argentina, representantes dos dois governos querem decidir, hoje, dois temas considerados os mais problemáticos na relação bilateral: os brasileiros querem o fim de barreiras burocráticas à venda de tratores e máquinas agrícolas, e os vizinhos pedem medidas de "integração produtiva", especialmente para reduzir o que consideram um grande grande déficit argentino no comércio de autopeças entre os dois países. Brasil e Argentina planejam mecanismo conjunto de apoio ao setor de autopeças.

Ontem, argentinos e brasileiros decidiram lançar missões conjuntas de promoção comercial no mercado chinês, para venda de produtos alimentícios, móveis e calçados. O encontro, comandado pelo secretário de Indústria argentino, Eduardo Bianchi, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho e o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, não chegou, porém, a discutir a perda de mercado dos exportadores brasileiros para a China, na Argentina. A China tem tomado do Brasil o mercado argentino de produtos químicos orgânicos, máquinas e aparelhos mecânicos e vestuário e tecidos de malha.

Segundo estudo de Lia Valls Pereira, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, em 2008 o Brasil chegou a perder, para fornecedores de outros países, o equivalente a US$ 1,5 bilhão em vendas à Argentina, comparadas ao desempenho em 2005 - cerca de 12% do total das vendas ao país vizinho. Desse total, 58% podem ser atribuídos aos concorrentes chineses, que ocuparam espaço antes cativo dos exportadores brasileiros.

A China foi responsável por mais de 60% das perdas de mercado de produtos químicos orgânicos e de tecidos de malha e quase 84% da perda nas vendas de vestuário e acessórios de malha. O governo calcula que essas perdas podem ter diminuído em 2009, quando, após retaliações por parte do Brasil, com retenção de produtos argentinos nas alfândegas. a Argentina passou a acelerar a emissão de licenças de importação a produtos brasileiros, em detrimento de concorrentes como os chineses. Recentemente, voltaram a surgir queixas de atrasos na liberação, concentrados nas vendas de tratores e máquinas agrícolas.

A Argentina vinha cumprindo a promessa feita pela presidente Cristina Kirchner ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que as licenças não ultrapassariam o limite de 60 dias, fixado pela OMC. Em contato telefônico com Bianchi, antes da reunião, Barral cobrou explicações para o caso das máquinas agrícolas. Recebeu a explicação de que tudo se devia apenas a dificuldades burocráticas, que seriam resolvidas em breve.

Sem o atrito pelas licenças retidas e a reivindicação argentina de "projetos concretos" para aumentar a "integração produtiva", a reunião que se encerra hoje seria rotineira, de conteúdo burocrático, na avaliação de funcionários brasileiros. Os argentinos se ressentem, porém, das tendências apontadas em estudo recém-divulgado pela consultoria Ecolatina, segundo o qual o aumento das vendas argentinas ao Brasil está concentrado em produtos básicos, como trigo, e é deficitário especialmente no setor de autopeças.