Título: Petrobras sacode a bolsa
Autor: Torres, Fernando; Pavini, Angelo
Fonte: Valor Econômico, 22/09/2010, Eu e Investimentos, p. D1
De São Paulo
Além de fazer a maior oferta de ações do mundo, que pode passar de R$ 130 bilhões, a Petrobras deve bater outros recordes que prometem mexer com a bolsa paulista. Embora sem apontar um número, os analistas apostam que a operação será a mais popular entre os investidores pessoa física, superando o feito da BM&F no fim de 2007, que atraiu 253 mil pequenos aplicadores. O período de reserva para investidores de varejo termina hoje.
"Tendo em conta a visibilidade da empresa, [a oferta] deve atrair muita pessoa física. A possibilidade de bater o recorde é bastante provável", disse o diretor de um banco de investimento que preferiu não se identificar.
Mesmo para Luiz Gustavo Medina, sócio da M2 Investimentos, que tem sido um crítico da operação, a capitalização da Petrobras deve bater, "com sobra", a da BM&F em número de investidores pessoa física. "Para a grande população, é um papel que todo mundo gosta, porque só ganhou dinheiro com ele. Quem está mais preso aos detalhes e mais preocupado são os grandes investidores e aqueles que perdem dinheiro há um ano ou um ano e meio com a ação", afirma.
Atualmente, a Petrobras possui 326 mil acionistas diretos, ficando atrás das teles - Telebrás, Telesp, Tele Norte Leste, Vivo e Brasil Telecom, por conta dos planos de expansão - e de Banco do Brasil e Bradesco. Esse número de 326 mil investidores não inclui aqueles que detêm participação indireta por meio de fundos que usam recursos do FGTS ou via fundos abertos destinados apenas às ações da estatal, bem como pequenos investidores estrangeiros. No total, a própria empresa calcula ter uma base de 1 milhão de investidores pessoa física.
Essa possibilidade de investir nos papéis da estatal por outros meios pode evitar que se veja um número tão maior de investidores entrando na operação diretamente. Isso porque diversos bancos de varejo lançaram fundos de investimento específicos para participar da oferta pública.
Mesmo com essa ponderação, o mercado aposta que a distribuição deve aumentar de forma importante o número de investidores pessoa física com contas ativas na BM&FBovespa, repetindo o que ocorre principalmente nas grandes ofertas iniciais de ações, mas também em distribuições de papéis de empresas populares já listadas.
Na oferta recente do Banco do Brasil, em que os funcionários da instituição tiveram incentivo para participar, foram mais de 100 mil aplicadores pessoa física, que ajudaram a explicar um salto de quase 40 mil investidores com contas ativas na bolsa em julho, atingindo um total de 600 mil.
No caso da Petrobras, são 76 mil funcionários, que terão bônus de 15% sobre o total aportado. Para cada 100 ações adquiridas, eles levarão 115 para casa. Com base nesses números, uma corretora estima que a capitalização da Petrobras pode trazer 80 mil novos aplicadores à bolsa.
Em dezembro de 2007, quando houve a oferta da BM&F e do Banco do Brasil, as duas mais populares até hoje, o número de investidores com ações em custódia na Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC) aumentou em 128 mil, ou quase 40%, para 456 mil na época.
No curtíssimo prazo, mantido o histórico, a expectativa é que apenas as ações da estatal movimentem entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões na sexta-feira, após o valor de venda das ações na oferta ser conhecido, ante um giro médio diário de R$ 6,3 bilhões de toda a bolsa neste ano. O recorde de negócios em dia sem vencimento de índice ou opções é de R$ 13 bilhões, em agosto de 2008. No geral, o recorde de volume foi alcançado em 15 de agosto de 2007, com R$ 18,4 bilhões.
Esse volume para o primeiro dia foi estimado com base em levantamento feito pelo Valor com as 24 ofertas subsequentes realizadas entre 2009 e 2010. O estudo mostra que, na média, o giro com as ações de uma empresa que vende papéis em ofertas públicas é de 12% do montante da distribuição. Na oferta de R$ 19,4 bilhões da Vale, feita em julho de 2008, o mesmo índice se repetiu.
Mesmo com a previsão de forte giro de negócios nos próximos dias, a BM&FBovespa garante que não haverá problemas técnicos, como o que ocorreu na abertura de capital da antiga BM&F, em 2007. Na época, devido à grande procura, os investidores de varejo conseguiram comprar no máximo R$ 1,8 mil em ações da empresa, ficando com menos de cem papéis cada um. O resultado foi uma onda de ordens de venda das ações no mercado fracionário, o que acabou congestionando o sistema da bolsa e de algumas corretoras.
Procurada, a BM&FBovespa informou por e-mail que "está totalmente preparada para a demanda resultante pela oferta da Petrobras". A empresa disse que a capacidade do sistema vem crescendo ano a ano, tanto por conta da demanda corrente como pela expectativa futura de expansão.
Em 2007, segundo a bolsa, a capacidade no mercado de ações era de 390 mil negócios por dia. Em 2008, foi para 770 mil negócios por dia e hoje é de 1,5 milhão de negócios diários. O pico para ações foi de 634 mil negócios em um dia. Ao fim de 2010, a capacidade será de 3 milhões de negócios por dia, diz a BM&FBovespa.
O diretor superintendente da Associação Nacional das Corretoras (Ancor), Carlos Lofrano, também disse não haver razões para preocupações. "Verificou-se nos últimos anos importantes investimentos por parte do setor de intermediação, de maneira geral, objetivando a adequação de seus modelos de negócio, suas estruturas de TI e de seus sistemas de negociação às mudanças estruturais ocorridas nos mercados de capitais", afirmou Lofrano, citando que as corretoras apoiam a campanha de popularização da bolsa, que tem como meta atingir 5 milhões de investidores pessoa física.