Título: Crescimento zero abre crise no governo
Autor: Caprioli, Gabriel; Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 15/07/2010, Economia, p. 14

Indicador do BC que mostra parada na economia depois de 16 meses de avanço dá munição a Mantega para voltar a atacar a alta dos juros. Ele se queixou diretamente a Lula

No novo front aberto na batalha entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central em torno do aumento da taxa Selic, a própria autoridade monetária deu munição ontem à equipe do ministro Guido Mantega ao apontar a completa paralisação da economia em maio. O Índice de Atividade do Banco Central (IBC-BR), que procura antecipar a tendência do Produto Interno Bruto (PIB) do país, estancou após 16 meses consecutivos de avanço e deve reforçar os argumentos de Mantega. Para o ministro, um novo aumento dos juros em julho é aceitável, mas elevar a taxa acima dos 11% pode comprometer o crescimento do país.

Desde que voltou de férias, na última sexta-feira, Mantega se mostrou disposto a atacar novamente a política monetária conduzida pelo BC, a ponto de ir pessoalmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticar a alta dos juros capitaneada por Henrique Meirelles. As principais armas utilizadas pelo ministro são os indicadores recentes da economia, confirmando previsões que Mantega havia feito desde o fim do primeiro trimestre de que a economia iria desacelerar a partir de abril e de que a inflação, assombrada por preços de alimentos, sofria na verdade um choque pontual, já revertido.

No mercado, é consenso que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai aumentar novamente a taxa de juros em 0,75 ponto percentual na reunião de julho. Também começam a ganhar força avaliações de que o BC pode trazer na ata do encontro um novo balanço de riscos, sinalizando uma redução no ritmo de ajuste na taxa ou mesmo o fim do ciclo de arrocho monetário. ¿Tudo indica uma acomodação do crescimento no segundo trimestre, mas mesmo que alguns agentes já comecem a rever suas projeções e, independentemente desses indicadores, o BC não vai alterar sua estratégia nessa próxima reunião, senão vai pegar o mercado de surpresa¿, avaliou a economista-chefe da corretora Icap Brasil, Inês Filipa.

Para a economista, as duas últimas atas do Copom foram muito claras em apontar, por exemplo, descompasso entre oferta e demanda, e um freio brusco do BC já em julho poderia criar ruído entre a autoridade monetária e as expectativas dos agentes econômicos. ¿Agora, o BC não tem compromisso com a taxa Selic no ano. Tem com a meta de inflação. A chance é pequena, mas ele poderia muito bem aumentar os juros (em julho) e sinalizar na ata uma parada no ciclo de ajustes¿, acrescentou.

Preços favoráveis Os analistas acreditam que a ideia de reduzir o aperto monetário pode se consolidar, caso a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho venha tão comportada quanto em junho, quando ficou em zero. De acordo com o Boletim Focus, pesquisa na qual o BC coleta as projeções das 100 maiores instituições financeiras do país, a expectativa de inflação para este mês foi reduzida pela terceira semana seguida e chegou a 0,23%.

Para o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, a retirada de estímulos fiscais e monetários no mercado doméstico e um menor ritmo de crescimento no mercado mundial também podem levar o BC a rever a estratégia após a reunião de julho. ¿De fato, os indicadores de atividade no Brasil mostram desaceleração no segundo trimestre, reflexo da reorientação das políticas fiscal e monetária feitas a partir do fim de 2009. Da mesma forma, as ainda frágeis condições de renda e crédito na economia mundial deixam claro que o ritmo de recuperação observado no primeiro trimestre não poderia ser mantido¿, destacou o economista em relatório.

As expectativas de inflação futura, para 2011, que atualmente são o principal alvo da política monetária, também não contribuem com o BC para justificar um ajuste mais longo nos juros. As projeções para o avanço do IPCA no ano que vem estão estáveis em 4,8% há 13 semanas, informou o Focus.

Apesar da análise de que o BC pode se decidir pelo último aumento do ano já em julho, o economista Homero Guizzo, da LCA Consultores, destaca que ainda é cedo para afirmar que o Banco Central pesou demais na elevação dos juros já realizada. ¿Ele elevou a taxa de 8,75% ao ano para 10,25%. Não é um aumento draconiano e, mesmo que ele promova mais dois aumentos de 0,75 ponto percentual, não vai ficar distante dos juros de equilíbrio, como em outras ocasiões¿, destacou. Na avaliação de Guizzo, o BC só deve encerrar o ciclo de aperto monetário após a reunião de julho se houver sinais mais sérios de paralisação da economia. ¿Por enquanto, o país ainda está crescendo. Não em ritmo chinês, como no primeiro trimestre, mas ainda crescendo¿, ponderou.

O BC não tem compromisso com a taxa Selic no ano. Tem com a meta de inflação. A chance é pequena, mas ele poderia muito bem aumentar os juros (em julho) e sinalizar na ata uma parada no ciclo de ajustes¿

Inês Filipa, economista-chefe da corretora Icap Brasil

O número 0,75 ponto percentual Consenso no mercado sobre a nova elevação de juros pelo Copom, que pode ser a última do ano

Ano deve fechar com PIB de 7%

Mariana Mainenti

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que a economia brasileira crescerá pelo menos 7% este ano. ¿Projetamos crescimento da economia não inferior a 7% em 2010 e temos a meta de gerar 2,5 milhões de empregos¿, disse Lula durante ato de assinaturas de convênios do Brasil com a União Europeia, no Itamaraty. Durante o evento, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o crescimento do Brasil ficará entre 6,5% e 7% este ano. As previsões anteriores do próprio ministro eram de um crescimento de até 6,5%. Questionado sobre os últimos números divulgados pelo Banco Central, Mantega disse ainda que não há superaquecimento da economia.

¿Já estava previsto. Faz tempo que digo isso para vocês: `vai haver uma desaceleração do crescimento depois do primeiro trimestre porque o primeiro trimestre antecipou o faturamento, as vendas, do segundo trimestre¿. Então é como se a gente devesse fazer uma média: pegar o primeiro trimestre, que foi um crescimento muito forte, somar com o segundo trimestre e dividir pelo meio¿, argumentou.

Preocupação Mantega previu uma recomposição do crescimento a partir do terceiro trimestre do ano. ¿Estaremos naquela época com 5,5% de crescimento, 6% de crescimento¿, calculou. O ministro afirmou que é natural que agora tenha havido uma desaceleração e que o crescimento do primeiro trimestre foi uma reação à queda de 2009, mas que haverá uma acomodação da economia num patamar ¿normal¿ de crescimento. ¿O novo patamar normal de crescimento é 5,5%, 6%. Então, este ano é um pouco atípico por conta do que aconteceu no ano passado. Tirando estímulos, a economia desacelera e entra num ritmo normal. O ano termina com 6,5% a 7% de crescimento¿, disse Mantega durante a Cúpula Brasil-União Europeia, em Brasília.

O ministro previu ainda que o ano terminará com uma inflação dentro da meta estabelecida. ¿A inflação é uma preocupação permanente da gente, mas com o IPCA zero é claro que ela deu uma caída, que, aliás, eu já havia previsto também. Eu falei: `alimentação puxava a inflação para cima e vai puxar para baixo¿.

E nesse momento puxou para baixo, tanto que deu IPCA zero (em junho)¿, disse. Para Mantega, esse resultado é muito satisfatório porque indica que o crescimento é sustentável e que não há superaquecimento da economia. ¿Nós teremos um crescimento sustentável até o final do ano e devemos encerrar o ano com a inflação dentro das metas¿, estimou.