Título: Força-tarefa secreta da UE tentou, e não conseguiu, evitar crise grega
Autor: Walker , Marcus
Fonte: Valor Econômico, 27/09/2010, Internacional, p. A12
Dois meses depois de o banco americano Lehman Brothers quebrar, em setembro de 2008, um pequeno grupo de líderes europeus criou uma equipe secreta - tão confidencial que a apelidaram de "o grupo que não existe".
Sua missão: criar um plano para impedir uma moratória entre os 16 países da zona do euro.
Quando a Grécia enfrentou problemas, um ano depois, o conclave, cuja existência nunca foi divulgada, ainda não tinha conseguido chegar a um acordo sobre qual estratégia seguir. Num prelúdio do conturbado debate público que depois atrasaria até a última hora a resposta europeia à crise de dívida soberana da zona do euro, a força-tarefa lutou para vencer a falta de concordância sobre como e quando a região deveria resgatar um de seus membros. E ela nunca conseguiu encontrar a resposta.
Uma investigação do "The Wall Street Journal" com base em dezenas de entrevistas com autoridades dentro e fora da UE revela que as divisões que assolaram a força-tarefa levaram a união monetária à beira do abismo. No início de maio, horas antes de a Alemanha e a França encerrarem o impasse e aceitarem endossar um fundo de trilhões de dólares para socorrer os membros da zona do euro com problemas, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, disse a sua delegação que a zona do euro estava prestes a se dissolver, segundo pessoas a par da questão.
O colapso da zona do euro teria consequências no mundo inteiro. Uma onda de moratórias de governos na periferia da Europa poderia ter gerado uma nova crise do sistema bancário internacional, com consequências para a economia mundial ainda piores que as da falência do Lehman.
As perigosas escaramuças foram motivadas por divisões ideológicas que ainda paralisam a união monetária em sua busca por soluções para suas falhas estruturais. As diferenças profundas de política econômica entre o conservador e frugal norte do continente e o sul mais permissivo, entre a Alemanha e a França e entre os governos nacionais e as instituições centrais da União Europeia impediram uma efetiva reação antecipada à crise. Só quando se viram à beira de uma calamidade - o colapso da zona do euro - é que os líderes deixaram as diferenças de lado e chegaram a um acordo.
Para complicar as coisas, os dois políticos mais importantes que decidiam o destino do euro tinham objetivos conflitantes - e muito a perder pessoalmente.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, enfrentava um declínio da popularidade devido à estagnação de suas reformas econômicas internas. O energético líder de 55 anos percebeu que os problemas da Grécia poderiam conturbar a zona do euro. Sarkozy aproveitou a questão como uma oportunidade de provar seu espírito de liderança e manter a popularidade.
Para a premiê alemã, Angela Merkel, de 56 anos, a crise foi a maior provação de sua carreira. Conhecida pelo estilo cauteloso e deliberatório, ela temia uma reação negativa dos eleitores e políticos alemães e uma derrota na corte suprema do país se arriscasse usar dinheiro dos contribuintes para socorrer a pecadora Grécia e seu eterno déficit orçamentário. Apesar da pressão de Sarkozy, ela resistia veementemente a uma solução rápida.
Quando Sarkozy invadiu uma reunião com seu séquito de câmeras de televisão e fotógrafos, Merkel ordenou friamente a saída da imprensa: "Não vou deixar você fazer isso comigo", disse ela, alertando que não se prestaria ao papel de "uma velha teimosa".
A Europa acabou criando em maio um fundo de socorro coletivo. Mas o preço da paz tinha subido exponencialmente e necessitou de uma promessa de 750 bilhões. Isso acalmou o pânico, mas não eliminou a crise: o endividamento insustentável ainda é um problema imenso, especialmente na Grécia e na Irlanda.
O perigo de uma crise de dívida soberana na zona do euro começou a preocupar os principais políticos europeus em outubro de 2008. A Hungria, um membro da UE que não usa o euro, descobriu que não conseguia mais vender títulos para os tensos investidores mundiais. A UE, recorrendo a um programa que já existia, mas era pouco usado, juntamente com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, rapidamente socorreu a Hungria, prometendo cerca de 20 bilhões em empréstimos.
Mas logo se tornou evidente que a zona do euro não tinha as ferramentas suficientes para salvar um dos seus. Os tratados da UE deixavam claro que o financiamento disponível para a Hungria estava fora de questão para os membros da zona do euro. Para a maioria das autoridades da UE, o FMI também era tabu: seus empréstimos serviam para os pobres países da Cortina de Ferro, achavam eles, mas não para os desenvolvidos membros da zona do euro.
Em março de 2009, um funcionário do Tesouro da França chamado Xavier Musca se preparava para deixar a presidência da Comissão de Economia e Finanças, um órgão influente de tecnocratas que administram a política econômica da UE. Ele passava instruções para seu sucessor, o austríaco Thomas Wieser. No fim de uma longa lista, ele acrescentou mais uma tarefa: "Por falar nisso", disse Musca, há "a equipe que não existe".
A força-tarefa secreta, coordenada pelo presidente da comissão, se reunia discretamente desde novembro de 2008 com o objetivo de criar um plano caso uma crise parecida com a da Hungria atingisse uma nação da zona do euro. Só podiam participar políticos importantes da França, da Alemanha, da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do gabinete de Jean-Claude Juncker, o premiê de Luxemburgo, que preside a assembleia de ministros da Fazenda da zona do euro.
A força-tarefa se reunia às sombras dos vários conselhos e conferências da UE em Bruxelas, Luxemburgo e outras capitais, geralmente começando às 6h da manhã ou indo até tarde da noite, à base de sanduíches. Os participantes mantinham os colegas em seus governos sem saber de nada, por medo de que um vazamento pudesse causar especulação nos mercados financeiros.
Os possíveis candidatos a uma crise eram óbvios: Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, um grupo de países altamente endividados e apelidado jocosamente com a sigla Pigs ("porcos", em inglês) pelos operadores de renda fixa.
Logo surgiram diferenças entre a Alemanha, defensora de regras da zona do euro que ela achava que impediam operações de socorro a membros deficitários, e a França, que queria mais liberdade para que os governos apoiassem como achassem melhor outros membros da zona do euro.
Também crescia a discordância sobre se uma instituição da UE deveria comandar qualquer operação de socorro. A Comissão Europeia, o braço executivo da UE, queria um papel central na administração desses empréstimos - e encontrou na França um aliado. A Alemanha, com medo de a UE ganhar poder demais, relutava em colocar seu dinheiro nas mãos de Bruxelas (onde fica a sede da UE).
O ministro da Fazenda da Alemanha temia que a comissão estivesse tentando criar um precedente para uma política centralizada de crédito a governos. E isso implicaria que a Alemanha, credor mais forte da Europa, teria de subsidiar os outros países. Em vez disso, a Alemanha insistia que qualquer operação de socorro teria de ser em empréstimos individuais de membros da UE para o país afetado pela crise. Dessa maneira, Berlim, que teria de arcar com a maior parte dos custos, poderia controlar o processo e forçar o país deficitário a reformar suas finanças.
As diferenças ideológicas entre os integrantes da força-tarefa duraram quase um ano. Em outubro de 2009, elas deixaram de ser uma disputa acadêmica. Naquele mês, o novo governo socialista da Grécia declarou que o déficit orçamentário do país em 2009 caminhava para 12,5% do PIB - mais de três vezes a previsão oficial divulgada anteriormente pelo governo.
Investidores chocados começaram a vender títulos gregos. A Grécia teria de realizar pagamentos substanciais de sua dívida no início de 2010 e não estava claro se teria dinheiro para isso.
Em fevereiro, ficou óbvio que os 16 países da zona do euro teriam de fazer algo para resolver a crise dos títulos gregos. A força-tarefa secreta de burocratas franceses, alemães e da UE abriu as portas para os outros países do euro, exceto a Grécia.
Estava planejada para 11 de fevereiro uma reunião de líderes da UE, para discutir as metas econômicas de longo prazo da Europa. Os governos insistiam publicamente que a questão da Grécia "não seria discutida". A esperança, dizem assessores de vários líderes europeus, era que a Grécia talvez conseguisse emitir títulos suficientes para se salvar se a Europa não perturbasse os mercados falando sobre o assunto.
Mas a cotação dos títulos gregos - uma importante medida de confiança dos investidores - começou a desabar poucos dias antes da reunião. Juncker, de Luxemburgo, convocou uma teleconferência de emergência de ministros da Fazenda da zona do euro, às vésperas da reunião dos líderes da UE. Eles concordaram que um comunicado seria lido na conclusão da reunião, prometendo "apoiar" a Grécia.
No austero edifício da chancelaria (sede do governo), em Berlim, Merkel estava insatisfeita. Seus assessores lhe diziam que os problemas da Grécia eram muito mais profundos que uma escassez de recursos no curto prazo: o país não tinha competitividade econômica e gastava mais do que produzia. Sem uma reforma profunda, um socorro rápido manteria a solvência da Grécia apenas por alguns meses, alertaram. Além disso, a corte suprema da Alemanha iria bloquear qualquer operação de socorro, alertavam seus assessores, a não ser que fosse totalmente inevitável.
Tarde da noite, Merkel ligou para outros líderes, incluindo Sarkozy, e deixou claro que vetaria qualquer promessa de socorro à Grécia, a não ser que Atenas adotasse medidas muito mais duras para diminuir seus gastos públicos e reformar a economia.
Sarkozy argumentou que o primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, já estava adotando medidas corajosas. "Agora é hora de a Europa ajudar", disse ele.
"Os mercados financeiros vão dizer que essa não é a solução", disse Merkel ao líder francês.
A reunião do dia seguinte, uma quinta-feira, estava marcada para 10h15, na Biblioteca Solvay, um edifício histórico no alto de uma colina de Bruxelas. No fim da quarta-feira, o presidente da UE, o belga Herman Van Rompuy, a adiou por mais de duas horas. Uma nevasca foi a explicação oficial para o atraso.
Na realidade, Van Rompuy tinha se reunido na manhã daquele dia, em seu escritório no quinto andar do local da reunião da UE, com alguns seletos líderes - Merkel, Sarkozy e o presidente do BCE, o francês Jean-Claude Trichet, entre outros. Na biblioteca, outros líderes europeus esfriavam a cabeça. Nos mercados cambiais, o euro oscilava em meio à expectativa de uma arrojada operação de socorro - ou de um colapso.
Sarkozy queria que a premiê alemã apoiasse um comunicado claro de que a Europa iria apoiar a Grécia. "Não posso comprar isso", respondeu Merkel.
Van Rompuy conseguiu fechar um acordo com uma frase que seria acrescentada ao comunicado que assessores estavam rascunhando numa mesa próxima: "O governo grego não requisitou nenhum apoio financeiro". A frase contrabandeava uma referência velada à Grécia, mas atendia à exigência de Merkel, que insistia que não deveria ser oferecida ajuda ao país. Foi uma vitória para ela.
Em meados de março, o primeiro-ministro grego já implorava abertamente que a Europa reconfortasse os mercados colocando dinheiro na mesa. Merkel chegou a ir à rádio pública alemã dizer que a Grécia não precisava de socorro.
Mas, nos bastidores, Merkel começava a assumir o comando do plano de emergência. Seus assessores diziam que o socorro à Grécia tinha que ser apresentado a seus eleitores desconfiados como parte de um programa do FMI para consertar as finanças gregas. A presença do Fundo, com seus dolorosos métodos, também ajudaria a desmotivar pedidos de socorro de outros países endividados da UE.
Sarkozy não queria envolver o FMI, cujo maior acionista é o governo americano. A Europa não pode deixar "os americanos" decidirem quem recebe crédito na Europa, disse o presidente francês.
Mas Merkel bateu o pé, insistindo que só o FMI tinha a experiência necessária. Sarkozy, reconhecendo que o poderio financeiro da Alemanha era essencial para qualquer operação de socorro, acabou tendo que ceder.
Em 11 de abril, com a crise de confiança se espalhando dos títulos soberanos gregos para o sistema bancário do país, a UE finalmente colocou o dinheiro sobre a mesa. Como queria a Alemanha, o país receberia 30 bilhões no primeiro ano, na forma de 15 empréstimos separados entre governos, enquanto o FMI emprestaria mais 15 bilhões. As autoridades esperavam que o montante, suficiente para cobrir um ano de endividamento da Grécia, seria suficiente para acalmar os mercados financeiros.
Mas não foi.