Título: Chavistas tiveram menos votos, mas ganharam maioria na Assembleia
Autor: Rittner , Daniel
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2010, Internacional, p. A11
Oposição e chavistas reivindicaram para si, em uma guerra de discursos, vitória nas eleições legislativas da Venezuela. A Mesa de Unidade Democrática, que reúne as forças opositoras ao presidente Hugo Chávez, conquistou 48% dos votos totais no domingo, mas preencherá apenas 65 dos 165 assentos da assembleia unicameral do país.
Já o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), em aliança com o pequeno Partido Comunista, teve 46,4% da preferência nacional, mas terá 98 deputados. O esquerdista Pátria para Todos, que rompeu com o chavismo há três anos, obteve 2,91% dos votos e ocupará duas cadeiras na assembleia, cujo período legislativo começa em janeiro.
A desproporção entre votos e número de parlamentares está no recente reordenamento das zonas eleitorais, patrocinado por Chávez, que já temia o desgaste eleitoral gerado pela recessão econômica, a disparada nas taxas de violência urbana e o racionamento de energia elétrica.
Com um voto menos do que o necessário para alcançar três quintos da assembleia, o presidente perderá a maioria qualificada para aprovar as chamadas "leis habilitantes", que já usou no passado para governar por decreto. Também ficará longe dos dois terços necessários para indicar, sem negociação com os opositores, para realizar reformas constitucionais ou indicar aliados para cargos, por exemplo, no Conselho Nacional Eleitoral.
Pela primeira vez desde 1998, Chávez não apareceu em público durante a madrugada para comemorar os resultados junto a correligionários, como costuma fazer. Por outro lado, insistiu em que essa foi sua 14ª vitória em 15 eleições - ele só admitiu derrota no referendo para as reformas constitucionais de 2007. Seus aliados lembraram que, com uma composição de 98 votos favoráveis e 67 contrários, a folga do governo governo na assembleia continua maior do que qualquer outro período legislativo nas últimas décadas - à exceção do último, após boicote da oposição às eleições de 2005.
Para a oposição, o triunfo é incontestável. "Os resultados parlamentares indicam o começo do fim do chavismo", disse o ex-governador de Miranda e deputado eleito Enrique Mendoza.
Para o sócio-diretor do Instituto Datanálisis, Luis Vicente León, a radicalização distanciou Chávez dos setores moderados que o apoiaram no passado. Ficam duas alternativas, segundo ele, para o presidente: suavizar esse estilo para reconquistar esses setores ou acelerar a "revolução bolivariana". León acredita que, se optar por maior agressividade, o chavismo poderá diminuir suas chances nas eleições presidentes de 2012. "Para a oposição, a grande pergunta é se poderá transformar essa aliança eleitoral bem-sucedida em aliança política de longo prazo", diz. (DR)