Título: Deputada é a nova cara da oposição na Venezuela
Autor: Rittner , Daniel
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2010, Internacional, p. A11

Ela promete ser a nova cara do antichavismo na Assembleia Nacional - mas mantendo o charme e a doçura. María Corina Machado, sem filiação partidária e nenhuma experiência prévia nas urnas, foi um dos grandes destaques nas eleições legislativas da Venezuela. A avalanche de votos recebidos no Distrito 2 de Miranda, que abrange boa parte de Caracas, a transformou em uma das apostas da oposição para construir uma candidatura com chances de vitória na sucessão presidencial, em 2012. O próprio Hugo Chávez reconheceu a popularidade da deputada eleita, a quem chamou de "burguesinha de fina estampa", há duas semanas. E propôs um desafio. "Ah, como eu gostaria de enfrentá-la em 2012", disse.

Muitos eleitores da oposição acreditam que nenhum candidato pode ser tão eficaz em resistir aos ataques do presidente venezuelano. "Você pode imaginar que nós somos machistas demais para eleger uma presidente, e talvez isso seja verdade, mas também é fato que ninguém admitiria golpes baixos de Chávez contra uma mulher", afirma o contador Pedro Molleja, que circulava no domingo à tarde em Altamira, um bairro caraquenho de classe média alta tido como reduto da oposição.

No país mais bem-sucedido em concursos de beleza, há quem compare Corina com Irene Sáez, ex-miss Venezuela que foi prefeita, governadora e até candidata a presidente contra Hugo Chávez, em 1998 - sumindo do cenário político, logo depois, de forma tão repentina quanto a sua ascensão.

Mas a trajetória profissional das duas é radicalmente distinta, e o livro preferido de María Corina não tem príncipes. Engenheira industrial com especialização em finanças, ela foi uma das fundadoras e presidente da Súmate, a organização não governamental criada em 2002, meses após o golpe que tirou do poder e aprisionou Chávez por menos de 48 horas.

Para a oposição, a Súmate é um modelo de ONG na Venezuela, pela defesa dos direitos civis e fiscalização dos processos eleitorais. Foi quem liderou a coleta de assinaturas para o referendo revogatório de 2004, que tentou destituir Chávez pela via democrática; o presidente acabou vencendo.

Para os chavistas, a ONG é apenas uma entidade de fachada, que recebia verbas do governo americano para fortalecer a oposição. Uma foto de María Corina sorrindo no Salão Oval da Casa Branca, onde foi recebida pelo ex-presidente George W. Bush, é prato cheio para os seus críticos.

De "outsider", María Corina resolveu entrar na arena política no fim de 2009, quando concluiu um curso de políticas públicas oferecido pela Universidade de Yale a jovens líderes mundiais. Optou por uma candidatura independente, possibilidade prevista na legislação venezuelana. "Como uma figura independente, posso servir de amálgama para quem defende uma sociedade autenticamente democrática, autônoma e que respeita as suas instituições", disse em entrevista ao Valor.

Aos 42 anos, María Corina é a mais velha de quatro irmãs. Divorciada, tem três filhos adolescentes e não esconde a vaidade, evidenciada no batom e na maquiagem pesada. Esbelta e alta (tem mais de 1,70 m), ela aparece frequentemente em fóruns da internet como uma das mais belas personalidades públicas do país.

Ela não promete seguir carreira política como independente e diz que tudo dependerá dos trabalhos da oposição na Assembleia, mas critica "a falta de uma mensagem mobilizadora e energizante", assim como enfatiza que "não queremos voltar ao passado". Discorda de quem vê desarticulação entre os opositores. "Hoje podemos dizer que realmente temos uma unidade dos setores dissidentes", disse.

O cientista político Federico Welsch, professor da Universidade Simón Bolívar, coloca a futura deputada numa lista de cinco presidenciáveis da oposição. Ele desaconselha, porém, que se apresse a escolha do nome para enfrentar Chávez em 2012. "No caso particular da Venezuela, é pior definir uma candidatura com antecedência. É positivo, para a oposição, mostrar que não há uma, mas várias caras."

Ninguém no país se atreve a prever o que é capaz de acontecer até lá. Só os últimos dois anos, para comparar, acumularam uma série de reviravoltas: Chávez ganhou o direito de tentar reeleição indefinidamente, a moeda nacional sofreu maxidesvalorização e o setor elétrico enfrentou racionamento.

Por enquanto, segundo María Corina, seria uma "absoluta irresponsabilidade" pensar em qualquer outra coisa além do trabalho na Assembleia. Mas, olhando hoje, nada indica que o papel dela, daqui em diante, será secundário.