Título: O octagenário em ritmo de estrela de cinema
Autor: Olmos , Marli
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2010, Política, p. A7

O alvoroço na entrada da sala 101 do prédio de Ciências Sociais da USP chamava a atenção naquela tarde. As cadeiras foram todas ocupadas poucos minutos depois de a porta ser aberta. Vários alunos se espalharam pelo chão do corredor e outros fizeram fileiras no fundo, de pé. Alguns correram para o lado de fora do prédio e se debruçaram nas janelas para assistir à "aula" mais aguardada do dia: uma sabatina com Plínio Arruda Sampaio. O candidato do PSOL à Presidência da República aproveitou o apoio estudantil e o espaço nos debates para chamar a atenção para questões polêmicas, como a desapropriação de escolas particulares e de terras agrícolas e a legalização da maconha. Na véspera da eleição, Plínio continua na disputa por um ponto percentual, mas, na reta final da campanha, conseguiu roubar a cena diversas várias vezes. Aos 80 anos de idade, ele teria motivos de sobra para, a essa altura, dar sinais de cansaço. Carlos Eduardo, um dos 12 netos, acha, no entanto, que a campanha até ajudou o avô a rejuvenescer. Valéria Nader, uma das noras, reparou até que o sogro parou de se queixar de dores nas costas. Fadiga era o que menos parecia incomodar o senhor que subiu e desceu, com impressionante agilidade, rampas e escadarias, comuns em prédios universitários. "Estou gostosamente cansado", diz.

Sentado, descansando, nos intervalos da maratona, ele aparenta ser um velhinho pacato. A forma de vestir também é a de um homem conservador. Mas quando discursa, a impressão é outra. Plínio roubou boa parte da cena nos debates e arrancou aplausos nas universidades. Os 60 anos de vida política e a experiência como professor obviamente o ajudam a falar em público.

Mas foram as propostas revolucionárias que inflamaram os estudantes que se atropelaram para tirar foto ao lado do candidato. Um discurso que chacoalhou o ambiente apático dos universitários de 2010 ao ressuscitar ideias debatidas pelo movimento estudantil das décadas de 60 e 70.

Na questão da educação, Plínio foi direto ao ponto: "Cultura não é para gerar renda, é para melhorar a vida das pessoas. Isso aqui não é para vocês terem uma profissãozinha e assinar o ponto para o capitalismo."

O autor do texto da reforma agrária, motivo pelo qual ele foi exilado após o golpe de 1964, voltou ao assunto repetidas vezes. Disse que em vez de o problema da fome ser sanado com um programa como o Bolsa Família é preciso desapropriar terras com mais de 500 hectares. Defendeu, inclusive, a luta armada e a ação do MST. "As Farcs [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] são uma consequência inevitável de não haver um MST", disse ao apoiar também o governo de Hugo Chávez - "que está fazendo o certo num país que sofreu com a oligarquia".

A proposta de desapropriação das escolas privadas apareceu durante debate em duas delas. Na PUC em São Paulo: "Esse troço vai ser desapropriado." E, novamente na Universidade Católica de Brasília: "Esta bruta universidade cara para burro." No debate em Brasília, promovido também pela Conferência Nacional dos Bispos (CNBB), ele voltou a defender que 10% do PIB seja usado na educação para garantir que todas as escolas sejam públicas e acabar com as "máquinas de fazer diploma". "E a maconha? Ninguém vai perguntar?", indagou no debate na PUC, realizado alguns dias depois de ele defender a legalização da maconha na televisão. "Quer dizer, então, que haverá "maconharias"? Claro, como existem as "cervejarias"", destacou, arrancando aplausos efusivos.

Católico "de carteirinha", como diz, Plínio mexeu em questões delicadas, que confrontam com a posição da igreja, como a legalização da maconha e também do aborto. "E eu não vou obrigar nenhum menino a assistir aula de religião", disse, na PUC.

O candidato conta que depois que sua proposta de legalizar a maconha apareceu na televisão, os amigos começaram a telefonar, preocupados com os filhos e netos. "Não mexe com isso", diziam. O PSOL até montou uma equipe de consultas a psicólogos e juristas para tratar dessas questões. "Mas não é para liberar geral", explicava o tempo todo.

A questão da maconha foi levantada porque a ala jovem do PSOL havia levado para o partido a denúncia de que, sob o pretexto de flagrar quem usa maconha, policiais estariam chantageando jovens pobres.

O estilo do candidato fez com que o Twitter se tornasse uma peça chave na campanha. A ideia, que surgiu numa conversa informal, ganhou projeção e o Twitter de Plínio de Arruda Sampaio recebeu mais de 35 mil seguidores. Por trás disso estava uma competente fonte de abastecimento. O próprio candidato "tuitou" o tempo todo, usando intervalos entre debates e nas salas de embarque de aeroportos. Chegou a dar entrevistas para jornais alternativos, por meio do Twitter. A assessoria também ajudava e conseguiu enviar mensagens para a rede simultaneamente, durante os debates na TV.

Um dia, Luciana, a assessora que o seguia o tempo todo, e Rodrigo, jornalista que abastecia o Twitter, foram procurados por um outro Plínio Sampaio: um jovem de 20 anos, que começou a receber perguntas de eleitores em seu endereço no Twitter. A solução foi repassar as questões para a assessoria do candidato.

A família Arruda Sampaio participou ativamente na campanha. Alguns dos seis filhos - todos homens - o acompanharam o tempo todo, inclusive para ajudá-lo no deslocamento em automóvel. Os mais assíduos foram Vicente, filósofo, abraçado ao pai quase o tempo todo no entra e sai dos lugares, e Plininho, o economista da Unicamp, que se deslocou temporariamente de Campinas para São Paulo, onde o candidato mora, exclusivamente para trabalhar na campanha.

"É a coroação de uma vida longa na política", diz Francisco, um dos filhos. Biólogo, Francisco ajudou o pai até nas críticas a Marina Silva, a candidata do PV : "Dizem que meu pai é burguês e a Marina é do povo. Mas eles têm algo em comum: ambos traíram a classe." A família garante que Plínio nunca estimulou filhos ou netos a seguir a carreira política por acreditar que se trata de uma vocação. Mas Luis Gustavo, com 23 anos, filho de Francisco, já segue pelo menos a trajetória de formação do avô. Como Plínio, estuda Direito na USP e diz que sai dessa campanha "muito mais politizado".

Ninguém na família se surpreendeu com a ideia de disputar a Presidência da República aos 80 anos. Esposa do candidato há 56 anos, a simpática Marieta, reagiu com bom humor quando soube. "Eu disse a ele: "continuas o mesmo"". O casal se conheceu numa viagem de férias na praia, em Itanhaém. Marieta se habituou com o entra e sai na casa desde os tempos de exílio no Chile e Estados Unidos. Por isso, nem ligou de ver a casa se transformar num verdadeiro "comitê político".

Marieta recebe com bom humor tudo o que se fala a respeito da candidatura do marido. E debocha quando suspeita que alguém queira insinuar que o candidato deveria estar aposentado. Conta, rindo, a resposta que deu ao jornalista que recentemente perguntou o que ela mais desejava para o marido após essa eleição. "A reeleição", respondeu ela.

Os parentes do candidato do PSOL compareceram em peso no Angélica Grill, restaurante onde Plínio organizou um jantar para angariar fundos para os últimos dias da campanha. "É dessa forma que recolhemos dinheiro, de uma maneira muito franciscana. O custo da minha campanha é menor do que a de um deputado" disse. No início da campanha, o teto de gastos foi fixado em R$ 900 mil. Mas o valor total ficará bem abaixo. Segundo informações da assessoria, até o início da semana, a arrecadação estava em RS$ 114 mil e o total de gastos em R$ 54 mil. Boa parte dos recursos saiu do bolso do próprio candidato, segundo a prestação de contas.

Nessa campanha, Plínio também se transformou no melhor cabo eleitoral dos candidatos do PSOL. Fez propaganda para vários durante os discursos. Disputando uma vaga de deputado federal, Ivan Valente, que, assim como Plínio, é dissidente do PT, esteve com o candidato boa parte do tempo. "Essa candidatura representa um diferencial numa eleição que ficou polarizada entre dois candidatos com discursos de política e economia igualmente conservadores, a Dilma [Rousseff] e [José] Serra", afirma.

Antes de o PSOL decidir por sair com candidato próprio houve tentativas de coligação com PSTU e PCB. Mas o PSOL considerou as exigências de participação na legenda comum altas. Chegaram a 30% , segundo Valente, que lamenta a falta de acordo.

Apesar disso, Plínio diz que essa campanha ajudará o partido a consolidar um movimento de fortalecimento da esquerda. "Essa campanha foi dura porque estamos pegando a esquerda no nível mais baixo desde a revolução francesa. Mas conseguimos o debate a discussão", diz. "Com base nisso, vamos começar a mapear as pessoas para reiniciar o processo de crescimento do socialismo."

Não é possível prever se os estudantes que o aplaudiram nas salas de aula durante a campanha o seguirão. Para o candidato, porém, está claro o motivo do seu sucesso com a juventude: "Os jovens gostam de mim porque estou falando sobre os problemas deles. E eu tenho um jeitão solto. O Twitter foi um sucesso. Tenho 35 mil seguidores. É como ser um superstar."