Título: Mais votados do PT vêm do NE, mas bancada cresce mais no Sul
Autor: Grabois , Ana Paula
Fonte: Valor Econômico, 08/10/2010, Política, p. A7
O PT saiu das urnas com a maior bancada eleita para a Câmara dos Deputados, com 88 parlamentares, mas não conseguiu superar o resultado de 2002, quando conquistou 91 vagas, sob influência da primeira vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta eleição o partido cresceu 6% em relação à disputa anterior. O maior aumento deu-se no Sul, que ganhou mais três deputados, um em cada Estado da região. O Nordeste, no entanto, destaca-se por ter o candidato a deputado federal com a maior votação numérica do partido - o ex-prefeito de Recife João Paulo (PE), com 264.250 votos - e a candidata com a maior votação percentual da bancada - Fátima Bezerra (RN), com 13,33% dos votos válidos.
A presença do PT nas máquinas públicas federal, estaduais e municipais nos últimos anos, aliada à consolidação de um processo de nacionalização do partido são as principais características da nova bancada. O grupo conta com 36 novos deputados. A taxa de renovação foi de 41%, abaixo da média geral da Câmara, de 44%.
Assim como João Paulo, outros ex-prefeitos tiveram votações expressivas, como Newton Lima, de São Carlos (SP), e José de Filippi Jr, de Diadema (SP). Filippi é tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.
Entre os eleitos, pelo menos três são parentes de petistas de projeção nacional. No Paraná, Zeca Dirceu, filho do ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, conquistou seu primeiro mandato. Gabriel Guimarães, filho do deputado Virgílio Guimarães (MG), também conseguiu eleger-se para seu primeiro mandato por Minas Gerais, com 210 mil votos. No Ceará, José Guimarães teve mais votos que seu irmão José Genoino, ex-presidente do PT, e reelegeu-se com 210 mil votos. Genoino, com 92 mil votos, está entre os suplentes.
Estados localizados no Sul e Sudeste recuperaram força na bancada. Tradicional reduto petista, o Rio Grande do Sul aumentou o número de parlamentares depois de duas eleições. Elegeu oito em 2002, perdeu um em 2006, mas neste ano, potencializados pela eleição de Tarso Genro ao governo do Estado, passou a nove.
A maior bancada do PT continua sendo a de São Paulo, que passou de 14 deputados para 16. Cotado para disputar a Presidência da Câmara e um dos parlamentares que mais gastou na eleição, Cândido Vaccarezza ficou atrás de outros 12 correligionários e recebeu 131 mil votos. Vaccarezza é líder do governo na Câmara e foi líder da bancada petista na Casa.
Nos Estados em que o PT nunca teve a mesma força que no Centro-Sul do país, o que se constata no resultado das eleições para a Câmara é que o partido chegou aos grotões principalmente nas eleições de 2006 e que neste ano ocorreu uma sedimentação dessa conquista.
O Nordeste elegeu 24 deputados, semelhante ao que teve na reeleição de Lula, quando elegeu 23. Em 2002 eram 17. A Região Norte subiu de sete em 2002 para dez em 2006 e recuou para nove neste ano. O Centro-Oeste foi de oito em 2002 para seis há quatro anos e subiu para sete agora. No Distrito Federal, a bancada passou de um deputado para três. Os dois novos parlamentares, Paulo Tadeu e Erika Kokay, destacaram-se com a crise envolvendo o ex-governador do DF José Roberto Arruda e o vice, Paulo Octavio. Deputados distritais, criticaram o governo por corrupção.
Estados como Pernambuco, Ceará e Bahia aumentaram suas bancadas no governo Lula e assim se mantiveram neste ano. É na região que está o melhor exemplo da outra característica predominante da atual bancada: a intimidade com a máquina pública. Dos 88 eleitos, 54 se reelegeram e 36 estiveram recentemente na máquina pública. Dez deles foram secretários estaduais durante o governo do presidente Lula, dezessete são deputados estaduais, cinco foram prefeitos, dois atuaram no governo federal e apenas dois não tinham laços diretos com o poder, pois eram dirigentes partidários.
Na Bahia que reelegeu Jaques Wagner governador do Estado no primeiro turno, dos dez eleitos, cinco tinham ligação direta com o governo estadual. Rui Costa foi secretário de Relações Institucionais e teve a maior votação da legenda, 212.157 votos (3,17%). Afonso Bandeira foi secretário de Desenvolvimento Urbano e terceiro mais votado, com 143.795 votos. Valmir Assunção foi secretário do Desenvolvimento Social e quinto mais votado. Waldenor Pereira (sexto mais votado) é líder do governo na Assembleia e Amauri Teixeira chefe de gabinete da Secretaria de Saúde (foi o nono mais votado).
Todos eles, a exemplo da maior parte de toda a bancada do partido, tinham um militância político-partidária anterior à chegada do PT ao Executivo. Rui Costa, o petista mais votado da Bahia, conhece o governador Jaques Wagner, de quem é o braço-direito, desde o movimento sindical dos petroleiros baianos e afirma: "A passagem pelo poder amadureceu o partido. Você passa a enxergar o funcionamento da administração por dentro, seus limites e dificuldades".
Responsável na gestão baiana pela articulação política, ele compara o que pode vir a ser as diferenças entre a primeira bancada da era Lula e a do pós-Lula. "No primeiro mandato, tínhamos a cultura e tradição de quem sempre havia sido demandante e não era colocada a situação de realizar o que estava nos programas de governo. Quando passa do outro lado e tem a oportunidade de realizar os seus programas de governo, podemos ver a dificuldade de transpor as ideias para a realidade e ali encontramos dificuldades, seja de ordem do funcionamento da máquina do Estado, os entraves burocráticos ou as dificuldades de investimento", afirma.
Para Vaccarezza, líder do governo, o fato de boa parte da bancada ter passado por administrações é consequência das carreiras políticas que desenvolveram no partido e, por isso, ela tende a ser mais coesa e unida. "Não há outsiders ou novatos. A principal característica é a de antigos militantes."