Título: Câmbio a R$ 1,55 já está no radar
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2010, Finanças, p. C8
As novas medidas adotadas pelo governo para frear o fluxo de capital externo deverão apenas suavizar o ritmo de apreciação do real. A moeda brasileira continuará se valorizando e pode chegar a R$ 1,55 contra o dólar ao fim de 2011.
Essa é a visão de certos analistas, em meio à guerra das moedas. Segundo uma fonte bancária, havia uma percepção forte no mercado de que a taxa de câmbio poderia ter chegado perfeitamente a R$ 1,50 ou R$ 1,40 por dólar se nada tivesse sido feito. Isso considerando-se o cenário internacional: um mundo que será inundado por mais liquidez com novo afrouxamento monetário nos EUA e fluxos de capitais para os emergentes.
Para Tony Volpon, diretor da Nomura Securities, em Nova York, com a nova alta do IOF sobre capital estrangeiro o governo adotou uma abordagem "incremental" de controle de capital, disposto a aumentar a taxa até o nível que tenha o impacto desejado.
Mas duvida dos efeitos das medidas adotadas, que vê como um "inquietante" afastamento do regime de câmbio flutuante, seguindo-se à "degradação institucional da política macroeconômica" no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Da mesma maneira que em 2008 a crise foi usada para justificar as mudanças na política fiscal, a atual "guerra de moedas" está sendo utilizada pelo governo para justificar um enfraquecimento do regime cambial, e isso é negativo para o Brasil e merece atenção", opina. Volpon avalia que não haverá mudança real na tendência de alta da moeda brasileira porque o cenário básico não mudou: num ambiente de forte oferta de capital, e o Brasil com política fiscal frouxa e crescente déficit em conta corrente, tudo o que o governo fizer somente muda a velocidade de apreciação na margem. "Mantemos nossa estimativa de câmbio a R$ 1,55 ao final de 2011", diz ele.
Analista do UBS, em Nova York, que acompanha o real, Alvaro Vivanco nota que a recente decisão do Brasil foi em relação à apreciação da moeda sobre o dólar americano, mas não necessariamente sobre uma cesta importante de moedas no comércio (trade-weighted basket).
Isso sugere que os principais motores para o real a curto prazo serão a forma exata e o tamanho do programa de afrouxamento monetário a ser anunciado pelo Federal Reserve e o nível global de aversão ao risco. "As medidas anunciadas não são suscetíveis de alterar a tendência geral, mas pensamos que irão levar a mau desempenho do real versus outras moedas de países emergentes, ou seja, outras moedas podem se apreciar mais em relação ao dólar do que ao real", diz o analista do UBS.
Por sua vez, Octavio de Barros, diretor de estudos econômicos do Bradesco, considera "muito provável" que a moeda brasileira continuará em linha com a grande maioria das moedas de outros países emergentes, sendo determinada pelo movimento global de enfraquecimento do dólar americano. Além disso, observa que os fluxos "mais promissores" para o próximo ano para o Brasil são de investimento direto e ações, que não serão afetados pelas medidas adotadas pelo governo.