Título: Jornalista acusa dirigente petista de ter furtado dados
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2010, Política, p. A7
Em seu depoimento à Polícia Federal, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. disse "ter certeza" de que os documentos fiscais sigilosos de pessoas ligadas ao presidenciável José Serra (PSDB) foram copiados sem o seu consentimento pelo deputado estadual petista Rui Falcão, de São Paulo, um dos coordenadores de comunicação da campanha de Dilma Rousseff (PT).
Amaury disse aos policiais que "nunca entregou o material a qualquer pessoa" e que "acredita com veemência" que os arquivos foram copiados do seu notebook no quarto do apart-hotel Meliá Brasília.
Diz um trecho do depoimento à polícia: "Que [Amaury] afirma ter certeza que tal material foi copiado por Rui Falcão pois somente ele tinha a chave do citado apartamento, pois já havia residido no mesmo, tendo o declarante verificado que o nome de Rui Falcão constava na portaria do hotel como sendo o ocupante daquela unidade".
Segundo o jornalista, o apart-hotel que ocupava é de propriedade de um homem identificado por ele apenas como Jorge. Ainda no depoimento, Amaury disse que Jorge é o "responsável pela administração dos gastos da casa do Lago Sul [onde funciona a coordenação de comunicação da petista] e da campanha de Dilma Rousseff".
Amaury disse ainda que se deu conta de que os arquivos foram copiados, quanto teve uma conversa com um jornalista da revista "Veja", que lhe teria feito uma descrição exata do dossiê que estava em seu computador pessoal.
Em meio à divulgação do teor das declarações de Amaury Ribeiro Jr., o deputado Rui Falcão negou qualquer envolvimento no caso. Em nota emitida ontem, Falcão afirma que "não procedem as afirmações de que [eu] tenha residido em apart-hotel do Meliá Brasília, nem tampouco que tivesse chave de qualquer apartamento naquele local". O deputado do PT também diz que "se, porventura, chegou a constar meu nome na recepção do hotel, não é de meu conhecimento, nem de minha responsabilidade". Na nota, Rui Falcão nega "terminantemente" que tenha copiado os dados do computador de Amaury e conta que "teve conhecimento há meses, através da imprensa, da existência de um suposto dossiê, e, quando procurado, sempre informei que a campanha não produzia dossiês, nem autorizava qualquer pessoa a fazê-lo em nome da campanha".
Em entrevista ao portal G1, em junho, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. sugeriu - mas sem citar nomes - que o furto dos dados de seu computador teria sido consequência da disputa de poder na pré-campanha de Dilma entre as alas paulista e mineira do PT.
No depoimento à PF, porém, Amaury afirma que a origem dos dados teria sido uma disputa interna no PSDB, entre o hoje presidenciável José Serra (SP) e o senador eleito Aécio Neves (MG), que lutavam para ser o candidato do partido à Presidência da República. O jornalista, que fez parte do "grupo de inteligência" da campanha de Dilma Rousseff, teria levantado informações sigilosas de familiares de José Serra para proteger Aécio Neves dentro do partido.
O ex-governador mineiro atribuiu as declarações de Amaury à disputa eleitoral em curso. Aécio negou manter qualquer ligação com o jornalista e disse que tem como meta eleger Serra presidente.
"É muito estranho que às vésperas da eleição uma versão de um depoimento busque criar o antagonismo no campo adversário. Serra e eu estamos absolutamente unidos, imunes a estas intrigas, e quem deve explicações em relação a dossiês, em relação a quebra de sigilos, como vimos no caseiro, algum tempo atrás, é sempre o PT".
O jornalista confirmou em depoimento à Polícia Federal que encomendou dados de dirigentes tucanos e familiares de Serra. Essas informações, obtidas ilegalmente em agências da Receita Federal em São Paulo, foram parar em um dossiê que, no começo do ano, circulou no comitê dilmista.
Amaury justificou a ação ao afirmar que iniciou seu trabalho de investigação contra Serra quando era funcionário do jornal "Estado de Minas" para "proteger" Aécio.
Para mostrar que há unidade dentro do PSDB, Aécio inaugurou ontem em Goiânia um comitê de campanha do presidenciável tucano. Acompanhado do candidato ao governo do Estado, Marconi Perillo (PSDB), Aécio disse que "Serra representa não apenas a vitória de um projeto político, de um partido político, mas a vitória da própria democracia".
A suposta participação de Aécio no episódio da quebra de sigilo foi posta em dúvida, ontem, segundo cruzamento de informações feito pela "Folha de S.Paulo" com a investigação da Polícia Federal. Amaury Ribeiro Jr. não estaria a serviço do diário "Estado de Minas" quando encomendou e pagou pela violação dos dados fiscais de parentes e pessoas próximas a Serra.
De acordo com registros trabalhistas, Amaury foi contratado pelo "Estado de Minas" em setembro de 2006. No dia 25 de setembro de 2009 saiu em férias por um período que iria até 14 de outubro. No dia 15 do mesmo mês, quando teria de voltar ao trabalho, pediu demissão e deixou o jornal, sem aviso prévio.
De acordo com o depoimento à PF do despachante paulista Dirceu Garcia - que admitiu ter recebido R$ 12 mil em dinheiro vivo das mãos de Amaury para comprar as declarações de renda das pessoas próximas a Serra - o jornalista lhe encomendou os documentos fiscais dos tucanos no fim de setembro.
No dia 8 de outubro, Amaury saiu de Brasília e foi a São Paulo buscar a papelada. O pagamento foi feito em dinheiro vivo no banheiro do bar Dona Onça, na avenida Ipiranga.
Ou seja, quando encomendou e desembolsou o dinheiro pelo serviço, Amaury não estava a serviço do "Estado de Minas", apesar de no papel manter vínculo empregatício.
Segundo investigações, o jornal teria bancado formalmente as viagens de Amaury até agosto de 2009. Em outubro, suas passagens de avião foram pagas em dinheiro vivo.
Em entrevista coletiva anteontem, a PF havia divulgado apenas que Amaury mantinha vínculo empregatício com "Estado de Minas", sem informar que estava em férias quando houve o pagamento pela compra dos documentos. A PF também havia informado que os deslocamentos do jornalista tinham sido pagos pelo diário mineiro, mas sem mencionar datas.
Em depoimento à PF, Amaury confirmou que conhecia o despachante Garcia e que teria lhe encomendado buscas em juntas comerciais, mas não de documentos sigilos. Desconversou também sobre a forma de pagamento pelos serviços.
O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, afirmou que os advogados do partido analisam entrar na Justiça para que o depoimento, de 11 páginas, de Amaury Ribeiro Jr, seja divulgado. Para Guerra, é fantasiosa a versão de que o jornalista teria passado por Minas Gerais e que a violação do sigilo do vice-presidente tucano, Eduardo Jorge, tenha sido feita por integrantes do PSDB. (Colaborou Rafael Rosas, do Rio, com agências noticiosas)