Título: Aumenta a pressão global sobre o modelo chinês
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Fonte: Valor Econômico, 11/10/2010, Opinião, p. A10
É preocupante a constatação do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, feita na quinta-feira, de que a disposição dos governos para a coordenação de políticas econômicas perdeu ímpeto. Strauss-Kahn alertou também que a busca de soluções domésticas para um problema global é uma ameaça à recuperação da economia mundial. As palavras do dirigente do FMI dão a dimensão das dificuldades que o mundo terá para chegar a um novo equilíbrio econômico.
A economia mundial pré-crise de 2008 foi marcada por um desequilíbrio entre países poupadores, que acumulavam imensos saldos comerciais e reservas, e países gastadores, que registravam acentuados déficits, tanto comerciais quanto fiscais. Nos extremos desse modelo estavam a China e os Estados Unidos. A crise tornou inviável a manutenção desse desequilíbrio, que agora precisa ser corrigido.
As famílias americanas terão de poupar mais e os Estados Unidos precisam reequilibrar a balança comercial, com elevação das exportações e diminuição das importações. Os países europeus necessitam seguir o mesmo receituário. A China e demais países que acumulam expressivos superávits comerciais terão que ampliar o consumo interno. Essas mudanças não ocorrerão, como lembrou Strauss-Kahn, sem alteração relativa nos valores das moedas. Em outras palavras, sem que os países que acumulam fortes superávits na balança comercial permitam a apreciação de suas moedas.
Embora o diagnóstico seja relativamente simples, o receituário é de difícil execução. A economia americana, o epicentro da devastadora crise financeira de 2008, ainda patina e tenta sustentar uma recuperação por meio de um esforço exportador. Para isso, o Federal Reserve Bank pratica uma política monetária frouxa que acaba por gerar pressão de baixa de dólar.
Ao mesmo tempo, o excesso de liquidez internacional que resulta dessa política está sendo dirigido aos países emergentes, o que valoriza suas moedas.
O governo chinês está deixando que sua moeda, o yuan, se deprecie junto com o dólar, o que gera um desequilíbrio para as demais moedas do mundo. Em reação a essa situação, diversos países começaram a tomar medidas para evitar uma apreciação indesejável de suas moedas. O Japão, a Coreia do Sul, a Suíça e Taiwan promoveram intervenções nos seus mercados de câmbio.
O governo brasileiro também tem adotado medidas para se defender do fluxo de recursos externos dirigido ao país, como a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% para 4%. Estender essa medida aos investimentos produtivos, como fez o governo, foi uma decisão de caráter duvidoso. Além disso, o Banco Central brasileiro está comprando dólares sem parar, em quantidade superior ao fluxo positivo de ingresso.
Ninguém quer pagar a conta do ajuste, embora todos os analistas considerem que ele será inevitável. Parece razoável supor que o primeiro movimento na direção de um entendimento deveria ser feito pela China, que há décadas acumula superávits comerciais consideráveis contra o resto do mundo, como mostram suas reservas de cerca de US$ 2,5 trilhões. Não há dúvida de que o yuan vem sendo mantido excessivamente depreciado, embora haja também problemas relacionados com os baixos salários e inexistência de legislação trabalhista nos moldes ocidentais, que resultam em menores custos de produção para as empresas chinesas.
O governo chinês não mostrou, até agora, qualquer sensibilidade aos argumentos a favor de uma apreciação do yuan. Ao contrário, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, disse que uma valorização do yuan entre 20% e 40%, como alguns defendem, levaria ao fechamento de fábricas e ao tumulto social no seu país. Esse entendimento da liderança chinesa certamente dificultará a solução do problema e poderá levar os países a uma rodada de reduções unilaterais de taxas de câmbio, com consequências imprevisíveis.
É difícil acreditar na recuperação da economia mundial sem que essa questão esteja encaminhada adequadamente. Por isso, o governo brasileiro não deve ficar parado. Além de adotar medidas de curto prazo para enfrentar o problema e defender uma solução negociada nos fóruns internacionais, o governo deveria se empenhar para reduzir os juros internos, mediante um reforço da política fiscal, e atacar, também, o chamado "custo Brasil" para manter os produtos brasileiros competitivos no mercado internacional.