Título: EUA rebatem críticas ao Fed e atacam países superavitários
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2010, Internacional, p. A11

O presidente americano, Barack Obama, jogou lenha no confronto com a Alemanha, acusada de fazer pouco pela retomada da economia global, e com a China, que continua intervindo para manter sua moeda desvalorizada e estimular suas exportações.

Em entrevista em Nova Déli, Obama foi incisivo: "Não podemos continuar com a situação de alguns países mantendo enormes superávits [comerciais], outros com enormes déficits, e nunca há um ajuste com respeito à moeda que poderia levar a um crescimento mais equilibrado", afirmou.

Contestando as críticas de que os EUA relançaram a guerra cambial com a injeção de liquidez de US$ 600 bilhões, Obama disse: "Tudo o que estimula o crescimento dos negócios nos EUA ajuda a causa da prosperidade global".

A evidência, porém, é que na véspera da reunião de cúpula do G-20 e na onda de fluxos de capital para os emergentes, o afrouxamento monetário americano foi visto como muito unilateral, enfraquecendo a cooperação entre os EUA e outros parceiros do grupo que também gostariam de ver a moeda chinesa se valorizar.

Até Obama falar, havia a expectativa de redução da tensão entre os EUA e o restante do G-20, pois Washington admitira ser irrealista estabelecer uma meta para déficit ou superávit em contas correntes.

Na verdade, os americanos não mudaram seu discurso. Depois de perceberem que a "meta" de limitar em 4% do PIB os déficits ou superávits a partir de 2014 era identificada com monitoramento direto do FMI, buscam agora a implementar "bandas" para contas correntes, que deveriam ser vistas "como patamar indicativo", mas que causam a mesma preocupação para países como Alemanha e China.

Para Kemal Dervis, do Brookings Institution, de Washington, um declínio de 5 pontos no saldo em contas correntes da China resultaria em pouco mais de 0,5 ponto adicional na demanda líquida no resto do mundo. "Isso é certamente muito significativo, mas não pode ser o motor do crescimento global ou dos EUA", escreve ele.

Países desenvolvidos e emergentes negociavam ontem no G-20 um acordo sobre "parâmetros indicativos" para cooperarem em politicas cambial, monetária e comercial, que sustente a recuperação econômica e reequilibre a demanda global. Os parâmetros serviriam como "mecanismo de alerta" para identificar os problemas e corrigir rapidamente as ações.

O divergência agora é sobre quais serão esses indicadores, quem vai avaliar a consistência das politicas de cada país e concluir se elas estão aptas a ajudar o conjunto da economia mundial.

A questão "vai ficar para o final da discussão" do documento, nesta quarta ou quinta-feira, disse um negociador, refletindo o impasse na capital coreana.

No texto em negociação ontem à noite, os países se congratulavam com o trabalho do Fundo Monetário Internacional (FMI) para fazer uma avaliação das consequências de impacto mais amplo de politicas econômicas.

Mas o consenso para aí. O rascunho do texto em negociação propõe que o FMI se encarregue de identificar progressos feitos pelos países em suas "políticas econômicas". Esse trabalho formaria parte integral do Processo de Avaliação Mútua (MAP, na sigla em inglês) a ser "endossado" pelo G-20.

EUA, Alemanha e alguns outros países desenvolvidos aceitam o papel para o Fundo, mas Brasil, China e outros emergentes, não. O Brasil acha que é o próprio MAP (ou seja, os países) que deve identificar os parâmetros a serem usados para determinar a natureza e as raízes que impedem o ajuste em suas politicas.

A China propõe que o MAP use a experiência do FMI, mas também do Banco Mundial, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), todas com enfoques diversos sobre a situação da economia mundial.

Para certos países, não há mecanismos formais e coordenação da ação coletiva para um processo de avaliação mútua mais sólido. Até agora, os membros do G-20 vinha fazendo uma avaliação conjunta de suas respectivas políticas, mas sem chegar a prescrições ou dar direções específicas sobre como cada um pode contribuir para uma expansão global mais sustentável.