Título: EUA relutam em acerto sobre redução de gasto público
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 10/11/2010, Internacional, p. A15

Além da batalha cambial, os EUA se chocam com alguns países no G-20, em Seul, também quanto ao compromisso de reduzir déficit público. O país quer manter opções para estimular sua economia.

O Valor apurou que Washington queria suprimir do texto final da cúpula do G-20 um acordo dos países desenvolvidos para cortar pela metade seus déficits fiscais até 2013 e estabilizar ou reduzir a relação dívida pública/PIB até 2016.

Esse compromisso foi assumido em junho, na cúpula do G-20 em Toronto. E o gesto americano de querer escondê-lo cinco meses depois ilustra como a consolidação fiscal se tornou mais difícil.

Nessa discussão, os emergentes estão do lado americano. Quando foram acertadas as metas em Toronto, o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, considerou que reduzir o déficit pela metade até 2013 nos países ricos seria "draconiana" e "um pouco exagerado", sugerindo um corte menor.

Agora em Seul, o Brasil também contestou a linguagem utilizada sobre uso de políticas fiscal, monetária, cambial e comercial num texto sobre ações para ajudar a sustentar a recuperação e ajudar no reequilíbrio da demanda global. Considerou que o texto parecia implicar que todos os países do grupo estavam renunciando a suas políticas fiscais como instrumentos possíveis para ajudar a sustentar a recuperação econômica.

"Isso certamente não é o caso do Brasil e de vários outros países", avisou a delegação brasileira, segundo uma fonte próxima das negociações. Organizações internacionais têm elogiado a ação do governo brasileiro na crise.

A Coreia do Sul, que preside a cúpula, manteve no "draft" as passagens que os EUA queriam suprimir. Para certos analistas, a alta taxa de desemprego nos EUA, próxima de 10%, colocará mais pressões para os políticos atuarem com frequência mais unilateralmente.

O presidente Barack Obama vai encontrar parceiros do G-20 que apertam os cintos, como o Reino Unido, que deflagrou duro programa de austeridade, e a França, que faz a reforma do regime de aposentadoria, entre outros.

Mas uma fonte do governo americano não vê isolamento de Wa-shington entre os países ricos sobre ajuste fiscal. Insiste que há um amplo entendimento de que os EUA precisam continuar a apoiar sua economia até que o setor privado esteja recuperado, ao mesmo tempo ancorando a consolidação fiscal. Um alto funcionário insistiu que o país está em boa posição para cumprir as metas de Toronto.

O debate continua nos EUA. O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman defende políticas mais expansionistas, diante do desemprego e do temor de cenário "deflacionista corrosivo" do tipo sofrido pelo Japão nos últimos 11 anos.

Para outros analistas, a margem de manobra fiscal se tornou quase nula, com risco grande de os EUA perderem sua classificação de risco AAA. De todo modo, os republicanos, agora no controle da Câmara dos Deputados, não querem mais estímulo fiscal, que consideram desperdício de dinheiro público.

Para países emergentes, como o Brasil, uma retirada prematura dos estímulos e cortes muito profundos nos gastos podem ameaçar a recuperação global. Por isso, insistem que não se pode esperar que eles carreguem nas costas a retomada do crescimento global.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que terá papel em monitorar as economias do G-20, disse na semana passada que as maiores economias estão fracassando no plano de cortar os déficits fiscais e manter a confiança dos mercados.

Para o FMI, um dos maiores riscos para a recuperação global é a dívida soberana gigantesca de US$ 4 trilhões que precisa ser refinanciada nos próximos anos.

Em Seul também ocorre uma cúpula empresarial, que reúne 120 executivos de empresas com faturamento total de US$ 4 trilhões em 2009. Em texto divulgado ontem, eles pedem que, à medida que a recuperação econômica se estabilize, medidas de estímulo sejam retiradas, e não criadas, para uma transição ordenada de demanda impulsionada pelos governos para a demanda vinda do setor privado.

Na sexta-feira, o comunicado final dos líderes do G-20 deve admitir que o temor do mercado sobre a sustentabilidade fiscal de vários países, somado a vulnerabilidades do setor financeiro, ameaça "desestabilizar a economia global".

Em contraste com a deterioração fiscal de vários países ricos, os emergentes têm um desempenho bem melhor também nesse capítulo. A relação dívida/PIB dos emergentes do G-20 deve retomar a tendência de queda para ficar em 44% do PIB até 2014. Em comparação, deve aumentar para 113% nos desenvolvidos que fazem parte do grupo reunido em Seul.